26 de abril de 2009

Exílio

Intelectuais saíram do Brasil durante a ditadura
Vitor Amorim de Angelo*


Durante a ditadura militar, muitos brasileiros deixaram o país e seguiram para o exterior. Era o início do exílio. Porém, diferente dos vizinhos latino-americanos, o exílio brasileiro não foi "em massa". Ou seja, não representou um grande fluxo de pessoas saindo do país. O exílio atingiu apenas uma pequena parte da população brasileira, formada, sobretudo, por uma classe média intelectualizada.

Ao lado das prisões e dos assassinatos com motivação política, o exílio teve a função de afastar os opositores do novo regime instalado em 1964. Nem todos, contudo, enquadraram-se nesse caso. Alguns exilados simplesmente resolveram deixar o país quando o presidente João Goulart foi deposto. Foram para o exterior legalmente e, até mesmo, sem uma visão crítica sobre a realidade brasileira.

A grande maioria, porém, saiu do Brasil em razão de suas posições políticas. Houve exilados que deixaram o país trocados por reféns ilustres. Em 1969 e 1970, organizações de esquerda seqüestraram os embaixadores dos Estados Unidos, da Suíça e da Alemanha Ocidental. Em troca de sua libertação, exigiram que presos políticos fossem soltos pela ditadura. No total, os militares libertaram 125 pessoas - todas exiladas para o México, Chile e Argélia.

O exílio latino-americano
Assim que os militares tomaram o poder, em 1964, muitos brasileiros saíram do país. Nessa primeira fase do exílio, os lugares mais procurados foram o Uruguai e o Chile. Próximo à fronteira com o Brasil, o exílio uruguaio expressou o verdadeiro sentimento dos que haviam deixado o país: a expectativa de que a volta seria breve. Para os primeiros exilados, a ditadura acabaria logo, como prometera o general-presidente Humberto Castello Branco, ou então seria derrubada pelas forças de oposição.

Leonel Brizola, por exemplo, fui um dos nomes de maior expressão entre os exilados no Uruguai. De lá, organizou o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), reunindo outros exilados e militares de baixa patente (sargentos, cabos e marinheiros) que ainda viviam no Brasil. Quando veio o golpe, muitos deles foram afastados de suas funções. Por isso, engajaram-se na resistência à ditadura. Inclusive pela força das armas.

No final de 1966, o MNR lançou a primeira ofensiva guerrilheira contra o novo regime. Com a ajuda de Cuba, que forneceu dinheiro, armas e treinamentos, 14 militantes da organização se instalaram na Serra do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Queriam organizar uma guerrilha rural contra a ditadura. Mas a polícia acabou descobrindo o plano e prendeu todos os integrantes do MNR deslocados para a região.

Conforme a ditadura militar ia se consolidando, ficava claro que os militares tinham vindo para ficar. Para os exilados, a volta ao Brasil tornou-se uma idéia cada vez mais distante. Foi nesse momento que a luta armada contra a ditadura se intensificou. A repressão, por sua vez, também se consolidou. Assim, muitos militantes de organizações de esquerda que pegaram em armas para lutar contra a ditadura começaram a ser presos.

Vários deles seguiram para o exílio. Porém, não mais em direção ao Uruguai, mas, sim, para o Chile. O país passou a ser o destino principal dos brasileiros. A experiência socialista do governo Salvador Allende atraiu muitos militantes de esquerda. Entretanto, a partir de 1973, com o golpe de estado no Chile, tornou-se inviável a permanência dos brasileiros ali. No Uruguai, onde os militares também tomaram o poder, os brasileiros se viram forçados a fugir novamente. Sobretudo porque as ditaduras latino-americanas tinham se unido para perseguir seus inimigos comuns - na chamada Operação Condor.

Rumo à Europa
Começou, assim, a busca por novos endereços. O principal destino dos exilados brasileiros foi a França. Paris tornou-se uma espécie de capital do exílio. Alguns brasileiros também se fixaram em outros países da Europa (como Suécia, Inglaterra e Portugal), do Bloco Socialista (União Soviética, em particular) e da América Latina (especialmente Cuba).

Do exterior, muitos ainda tentaram lutar contra a ditadura. Alguns poucos chegaram a voltar ao país, sendo que, desses, a maioria acabou morta ou presa pelo regime. Com o recrudescimento da repressão (que fez da tortura uma política de Estado), os brasileiros que estavam no exílio começaram a denunciar a violação dos direitos humanos cometida no Brasil, engrossando o movimento internacional contra a ditadura militar.

Essa fase do exílio brasileiro coincidiu, internamente, com a derrota que a ditadura impôs aos setores da esquerda que tinham optado pela luta armada. No exterior, os antigos guerrilheiros entraram em contato com outras experiências, renovando suas temáticas e também suas estratégias políticas. A esquerda brasileira mudava parcialmente sua concepção política, aproximando-se do novo cenário que se desenhava no Brasil.

Foi assim que a luta armada cedeu lugar à luta democrática. A revolução socialista poderia ser feita através da democracia, e não apenas pela força das armas, acreditavam os exilados. Assim, quando, em 1979, o governo brasileiro aprovou a Anistia, muitos dos que voltaram ao Brasil se integraram aos setores da sociedade que lutavam, desde meados dos anos 1970, pelo fim da ditadura e pelo restabelecimento da democracia.
*Vitor Amorim de Angelo é historiador, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos.

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