27 de março de 2009

AS HERESIAS MEDIEVAIS

A heresia no universo da ordem

A mandala de Hildergard Von Bingen, mostra no globo terrestre os quatros elementos, com águas celestiais, vento ocidental, o eter e suas estrelas, que eram governadas pela Lua com os planetas Mercúrio e Vênus e o vento oriental, abaixo escuridão, gelo e raios e a esquerda o vento norte, mostra ainda a camada de fogo contendo o Sol, Marte, Júpiter e Saturno e o vento Sul, a direita a zona precedente. Havia entre os teólogos e míticos uma fascinação sobre a criação.
Guillaume de Conches, acreditava que as leis da natureza tinha uma ordem inabalável. Para Hugo de Saint-Victor a matéria no início era uniforme, alguns estudiosos de Chartres aceitavam a idéia de um caos sacudidos por movimentos convulsivos, mas Deus não era confuso, isso porque a matéria formara-se imediatamente.
A criação para a filosofia e no plano mítico tinha um carater de mistério, e através desse mistério, o mundo e a presença de Deus era captados. Como não era fácil de se compreender Deus, os homens tinham que observar as suas manifestações . Para o homem do século XII Deus representava um artesão supremo, e que tudo o que existia no mundo era da bondade divina, e a criação não era encarada fora de Deus.
Segundo Santo Agostinho Deus deu a todas as substâncias uma medida, uma forma e uma ordem, e que todas tem seu lugar. Tudo tem uma ordem natural e foi feito perfeito.
A cabeça do homem representa a esfera celeste; a visão, do fogo; a audição e o olfato do ar; o paladar, da água; o tato e a carne, da terra, enfim o homem é a natureza. Deus é o responsável por tudo e os homens indicados por Deus podem até o limite de suas forças. Ao eleitos da Igreja teoricamente o seu poder deriva de Deus.
O cristianismo transforma-se em uma religião universal, de acordo com a política do Império Romano. Todos os povos deveriam ouvir as mensagens de Cristo, que estabelecia igualdade entre todos. A medida que as idéias de Cristo são divulgadas torna-se mais claro que o reino de Deus não era desse mundo e para se alcançar este outro mundo teriam que se passar pela morte e pela ressurreição . Todas essas mensagens eram passadas pelos sucessores diretos de Cristo neste caso Pedro e Paulo. Os seguidores de Cristo passa a ser um grupo organizado. O cristianismo se transforma um fato político, em igreja. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo são de suma importância, pois o seu nascimento representa o recomeço da humanidade, com Cristo há um antes e um depois, o tempo torna-se linear.
A Igreja como herdeira de Cristo é que leva todos aos caminho de Deus, e que o homem ressuscitará e será julgado por seus atos. O papa é quem tem o poder de estabelecer laços entre Deus e os homens, e se houvesse dúvidas a respeito desses ensinamentos essa igreja passa a exercer um poder temporal sobre os grupos que não tem como resistir.


A ruptura : do questionamento à heresia

Quem não acreditasse na Igreja e nas suas doutrinas, ela utilizava de vários métodos como: a negação, a discussão, a excomunhão e aniquilação do inimigo.
Devido aos conceitos indefinidos deixados por Cristo nos primeiros séculos houve uma forte penetração do platonismo e o neoplatonismo, no campo político houve influência romana. O cristianismo tanto foi ameaçado como estimulado pelo paganismo e filosofias antigas, pela cultura da antiguidade, e os cristãos versavam sobre os mais diferentes aspectos de suas verdades, mas essas divergências nem sempre constituíam em heresia. Para representar uma heresia, há uma união de elementos e circunstâncias que ameaçam o poder da Igreja. Para que seja considerada heresia ela se manifesta em discordância grupais.
Heresia é escolher, e dentro da mentalidade religiosa medieval era inaceitável escolher, o homem era escolhido, a escolha significava uma perturbação da ordem cósmica. É ortodoxo aquele que aceita as verdades relacionadas com o homem e a divindade . É herético aquele que escolhe uma verdade não estabelecida pela Igreja.
O herético não é um indivíduo sem fé, ao contrário ele é mais profundo, ele crê de uma maneira insolente. A heresia foi se modificando gradativamente na Idade Média Segundo Isodoro de Sevilha o herético não era mais o mesmo que criticava os dogmas cristão, e essa ligação herética com a Igreja é o que diferencia do israelita ou muçulmanos, pois esses eram considerados infiéis. Com o correr dos séculos a desobediência aos ensinamentos da Igreja crescem por não concordarem com as determinações papais .Nos textos medievais o herético é tido como louco e há relações entre heresia e a imoralidade. Para a Igreja a heresia se aproximada da bruxaria, e passa a ser vista como perversão com costumes ímpios. Essa confusão entre bruxaria e heresia é representada no processo de Joana D’Arc, só que essas idéias só ocorrem no mundo adversário . Raramente a heresia popular medieval apresentavam relações com a bruxaria ,da mesma forma que a magia aparecia no dia-a-dia do herético, também ocorria nomeio dos católicos.
A formação de um grupo herético não implica no rompimento entre a comunidade de origem e seus membros. Essa união é mais percebível no ponto de vista mental do que social. Nem sempre o herético abandona seu trabalho ou sua família para viver na marginalidade, e os que se afastam acabam formando grupos com diversos valores e apesar de sua crença o herético continua com os valores de sua comunidade social e trabalho, estando assim ligado a um sistema de vida e valores opostos. Na Idade Média existia heréticos de todas as camadas sociais, inclusive o clero, e até as mulheres eram consideradas iguais aos homens.


O oriente gerador de heresias


A religiosidade cristã manifestava-se diferentemente no ocidente e no oriente . O misticismo exagerado no cristianismo oriental era visto pela Igreja do ocidente com reserva. O monaquismo irlandês era o que mais se parecia ao oriental e era tido como irregular por Roma. A regra de São Bento ostenta a disciplina e a vida do dia-a-dia da comunidade e não ao misticismo. O monaquismo ocidental caracterizava-se por formar mais moderadas do contemptus mundi, evitando a queda num gnosticismo ou dualismo. Já no oriente desde os inícios do cristianismo tendia-se a especulação sobre problemas doutrinais. Com a chegada dos germanos, os cristãos romanos viram-se ameaçados tanto no lado espiritual como no material, por exemplo: Sidônio Apolinário em 475, dizia temer mais as leis de Cristo do que os ataques a Roma.
A Segunda vaga cristã no ocidente não seguia as mesmas doutrinas da Igreja de Roma, mas o arianismo. A antiga Europa romana nos inícios do século VI estava submetida aos heréticos. Todos os povos bárbaros eram arianos. Os católicos da Grã-Bretanha e da Gália foram atacados por povos pagãos , apenas duas regiões permaneceram católicas, a Irlanda e a Armórica, já não havia governo que comungasse a ideologia romana. Para sobreviver o papa uniu-se ao rei visigodo Teodorico. Em 320, em Alexandria, o bispo Arius pregava uma versão original e simples da Trindade, segundo ele a Trindade somente Deus pai era um eterno, inconcebido; Cristo para os teólogo a era o verbo, palavra de Deus, o logos grego,foi criado por Deus e por sua vez o logos teria criado o Espirito Santo. Cristo não era mais Deus , mas sim a primeira das criaturas. Em 325 o concílio de Nicéia declarou consubstancial ao pai, condenando o arianismo. Apesar dessa interpretação sobre a Trindade o arianismo tinha os mesmos rituais católicos, os mesmos sacramentos; diferenciando-se em algumas formulas. Seus locais de culto eram praticamente iguais aos dos ortodoxos. Não possuíam um clero regular e era casados e geralmente poucos instruídos,dependiam dos príncipes e não constituíam uma hierarquia como na Igreja romana. O arianismo era nacionalista. Os germanos evitavam se misturar com os católicos. Em 540 o arianismo desapareceu dando de novo lugar ao catolicismo ortodoxo.
A reconquista bizantina, a conversão de Clóvis ao catolicismo e a ausência de um clero instruído e organizado fez com que o arianismo desaparecesse, ficando apenas na Espanha e deixando a Igreja de Roma livre para solidificar sua doutrina e dominação dos povos; apesar de que a Igreja não conseguiu apagar os traços do paganismo. Ainda que a Igreja de Roma estivesse sujeita aos jogos políticos e nem sempre tinha um comportamento espiritual exemplar, tentou cristianizar com exageros, ocorriam os exorcismos e rezas diversas para cada problema. O clero era visto em todos os atos da vida pública.
A partir do século VI , a Igreja instalou-se na Europa num clima de sacralidade. No ano 1000 os movimentos heréticos expande-se ameaçando as doutrinas da Igreja; como por exemplo: Raul Glaber um cronista da época relata um fato que ocorreu por volta do ano 1000 , onde ele cita a história de um camponês que teve um sonho visionário, e que após essa visão, este camponês passou a fazer pregações contrárias aos dogmas da Igreja, em suas pregações ele conseguiu um considerável números de adeptos. O texto de Glaber segundo a antiga tradição literária fala de um camponês que ousa subverter toda a ordem, pois na época apenas o clero podia falar, esse camponês é visto pela Igreja como um louco, desqualificado e que acabaria se matando num poço.
Na Aquitânia, os maniqueus seduziram o povo, eles negavam o batismo , a cruz e todos os ensinamentos, fingiam a castidade, mas entre eles estava presente todas as formas de devassidão. Em 1022 em Orleans clérigos eruditos ensinavam que o corpo de Cristo não era real, Não nasceu de Maria, nega a paixão e ressurreição de Cristo , essa doutrina foi passada por homens vindos da Itália. Esses clérigos segundo Adhemar Chabannes adoravam um diabo sob a forma de um negro ou um anjo de luz, e que lhes dava muito dinheiro. Na Itália em 1028 uma comunidade negava a Trindade, proibia o casamento, mas ao mesmo tempo socializava os seus bens. No século XI havia camponeses adeptos dos maniqueus, estes eram contra o casamento e pregavam com eloquência
Em meados do século X, os abades de Cluny (910) tinham grande projeto de expansão que combatia a secularização da ordem sacerdotal, o que correspondia a um ideal de pureza. Os mesmos propósitos surge na França, em 1039, com São Rufo. Na Segunda metade do século, o eremita Gualberto tem a atenção voltada para esse movimento. Outras ordens surgem com a intenção de reformar e sanear como a de São Roberto e outras. A reforma alcança a cúria romana,Gregório VII em 1075, proclama o poder da religião sobre o poder político, para libertar a Igreja dos poderes a que estava submetida. Esses movimentos e reformas surgem no momento em que ocorrem mudanças em todos os setores como: economia, produção e efervescência intelectual urbana. Os movimentos heréticos atrai toda a camada social, desde os camponeses até os nobres, eles buscam um caminho que a Igreja não indicava.


As origens da heterodoxia na Baixa Idade Média

A origem da heresia divide os historiadores, uns acreditam que vieram das doutrinas do oriente; outros tentam minimizar esse fator.
No século XII emprega-se a palavra ariano, isto prova que os termos nada tinha com o conteúdo de ensinamento de cada grupo herético. Em 1145, São Bernardo não conseguia dar nome a esses movimentos . Meio século mais tarde Alain de Lille julga os novos heréticos menos racionais que os antigos . A tendência dos heréticos contemporâneos eram cópias das heresias antigas . A heterodoxia torna-se mais intelectualizada, havia debates teológicos nos meios eclesiásticos. A heresia medieval infiltra-se nos meios sociais, reaparece as heresias antigas, como o desprezo pelos sacramentos, pelas hierarquias eclesiástica, pela cruz, casamento e pela carne. Os heréticos dos séculos XI E XII repetem uma série de princípios caros aos Bogomilos e muitas as semelhanças entre os dois movimentos do oriente e ocidente.
Da crença dos bogomilos sabe-se que eram dualistas, para eles o diabo é que tinha criado o mundo, e que Cristo não tocaria neste mundo, detestavam a cruz, não adoravam Maria, achavam inúteis os sacramentos, não respeitavam as festas, a Igreja ortodoxa era considerada falsa etc. A única oração admitida era o Pai-Nosso, renunciavam a quase todas as coisas do mundo, não comiam carne. Não tomavam vinho , desencorajavam o casamento, confessavam-se entre si, ensinavam o povo a não obedecer aos senhores, eram radicais, humildes, quietos e sombrios Cosmas os considerava hipócritas. A heresia bogomila expandiu-se no oriente principalmente no domínio bizantino. Zigabenus diz que os heréticos não acreditavam num dualismo completo. O diabo tinha sido sempre o princípio do mal. No início apenas Deus reinava sobre o universo espiritual. A Trindade existia em Deus; o filho e o Espirito Santo originava-se de Deus, com formas diferentes e que cuidariam do mundo desde sua criação até o fim, o Pai gerou o filho, e o filho gerou o Espirito Santo e este gerou os 12 apóstolos .
O diabo também era filho de Deus chamado Satanael. Satanael revoltou-se contra o pai juntamente com outros anjos, com o fracasso esses anjos rebeldes tiveram que abandonar o céu, e nesse momento o diabo criou a Terra e um segundo Céu , criou Adão e Eva a partir da água e da terra, acidentalmente um pouco de água escapou do pé direito de Adão dando origem à serpente, quando o diabo soprou o espirito em Adão, esse sopro desviou-se para a serpente, então ele pediu a ajuda de Deus, e assim Adão pertencia aos dois; do mesmo jeito originou-se Eva . A serpente seduz Eva que gera Caim e uma filha Calomena; Adão com ciúmes gera Abel e Seth. Como punição o diabo foi privado por Deus de sua forma divina e seu poder criador, mas continuou sendo dono do que criou. Mas algumas almas conseguiram chegar ao Céu e pedir ajuda para a humanidade, 5500 anos depois, Deus enviou seu filho Gabriel, como Jesus para curar os males da Terra. O filho entrou na virgem através da orelha nela encarnou e pelo mesmo lugar saiu. A virgem nada percebeu, depois ela encontrou o filho numa gruta em Belém, ele viveu, ensinou, fingiu morrer, foi até o inferno e amarrou Satã e voltou para o Pai.
Os bogomilos não aceitavam a maior parte do Velho Testamento, liam o livro dos profetas, os quatro evangelhos e os Atos dos Apóstolos, aceitavam as Epístolas e o Apocalipse; para eles Moisés era um marionete do demônio e os únicos santos para eles eram os citados na genealogia em Mateus e Lucas, e, as pessoas que tinham sido martirizadas por se recusarem a adorar imagens. A Igreja ortodoxa era atacada, as relíquias eram tidas como superstições, e os milagres eram frutos de um pacto com o demônio. Sabiam que o demônio, voava por todas as partes e que cada pessoa tinha o seu demônio particular. Para eles os demônios adoravam as cruzes, diziam que a missa e a liturgia da Igreja não tinham sido instituídas por Cristo e pelos Apóstolos, eram contra o batismo de crianças porque ela não entendem o seu significado. O bogomilismo originou-se de uma heresia antiga denominada paulicianismo . Bogomil a adaptou para os eslavos e ela espalhou-se entre os camponeses. Atacando os ideólogos e os poderosos os bogomilos transformaram suas crenças na maior religião da Europa. Não há muita certeza sobre a expansão das heresias do oriente para o ocidente e nem se sabe quem foi o responsável por essas manifestações heréticas.
Historiadores como R. Morghen, não acreditavam numa ligação entre a heresia ocidental e o oriente. Apesar de não haver documentos a respeito, deve-se levar em conta de que nessa época tudo era passado por via oral e provavelmente a transmissão das doutrinas ocorreram da mesma forma, isso porque há coincidências entre os heréticos orientais e ocidentais. Para a compreensão da heresia na Europa é a presença de uma disponibilidade de espírito para acata-la. A Europa nessa época passava por transformações, a Igreja passava pela reforma e a conscientização do povo fez com que as heresias propagasse por toda a Europa.

As heresias do século XII

No início do século XII , surgem grupos que rompem com o formalismo, seguidores de Pedro de Bruys (1120), e os adeptos de Henrique companheiro de Pedro de Bruys. O grupo de Eon de I’Etoile e seus heréticos da Bretanha, o Bando de Tanchelmo no norte da Europa; o grupo de heréticos do Perigord e outros menos documentados. Formaram-se também grupos mais dogmáticos com ligações mais precisas com o oriente e afirmavam que sua doutrina vinha dos gregos. Após a Segunda cruzada (1147), alguns franceses que estiveram em constantinopla começam a pregar erros aprendidos no oriente, formando um bispado no norte do Loire sob a direção de Roberto de Epernon.
No concílio de Reims de 1157, a Igreja ataca os heréticos e são chamados de búlgaros. Alguns historiadores consideram que a instalação da doutrina dualista no norte e sul de Loire, era uma filiação ao oriente. A Europa recebia do mundo grego e búlgaro as heresias na Segunda metade os século XII. A revolta de Arnoldo de Brescia e seus discípulos contestavam a Igreja, negavam o direito de propriedade a Santa Sé. Os passagianos e os Speromitas negavam a unidade da substância trinitária e observavam a Lei mosaica.
No final do século XII , os pobres de Lyon (valdenses) agrupam-se em nome do evangelho e da reforma. Valdès, com seus seguidores pregava a penitência sem permissão eclesiástica. O grupo de Valdès proibidos pelo arcebispo de Lyon de pregar, foram expulsos. Valdès pediu ajuda do papa mas não foi atendido e em 1184 foram excomungados no Concílio de Verona juntamente com outros grupos. Formaram-se dois grupos entre os valdenses: os franceses do Languedoc, Provença, Delfinado, que incentivaram laços com a Igreja, embora admitissem somente o evangelho como Lei religiosa. Os valdenses italianos desligaram-se da Igreja e criaram um culto especial, espalharam-se pela Europa.
A pobreza voluntária baseada nos textos de Mateus, foi utilizados por tantos homens que a Igreja os qualificou santo; é, o caso de Roberto d’Arbrissel que foi chamado pelo papa Urbano II, deixou a vida errante, montou seu grupo de discípulos e passou a respeitar a hierarquia eclesiástica tornando-se assim como santo da Igreja . Para a Igreja o que interessava era a atitude desses homens perante as doutrinas da Igreja . A grande diferença entre Valdès e Francisco de Assis; é, que Francisco de Assis se submeteu a autoridade eclesiástica. Depois de muitas conversas a cúria decidiu que quem jurasse obediência, estariam livres das acusações, os que não aceitassem eram tidos como heréticos. Estes episódios demonstram que o problema não estava no teor de suas crenças, mas sim porque não tinham a autorização da Igreja. A Igreja não quer apenas que os homens sejam seguidores de Cristo , mas que eles sejam organizados e obedientes.
A figura do eremita e a sua idealização na sociedade demonstra o poder da Igreja. A Igreja desconfiava de que o eremita escondia uma heresiarca ou um propagador da heresia, geralmente tratava-se de um laico. Independente, extremamente pobre, o que constituía um perigo aos bens materiais da Igreja. Todo aquele que não fosse ligado a um membro da Igreja era considerado transgressor.
Segundo Raul Glaber no castelo de Montforte na Itália, uma mulher estaria propagando uma heresia, ela se vestia de negro, sua doutrina tinha pontos em comum a outras heresias, negava a encarnação de Cristo e da redenção, acreditava que a salvação provinha de uma iluminação intelectual, pregava contra a Igreja, proibia as relações sexuais não comiam carne e tinham como o ideal a morte e o martírio, eram contra a riqueza. Apesar da rigidez, a heresia de Montforte atraiu tanto camponeses como nobres e pessoas cultas.
O movimento patarino, como outras heresias era urbana com raízes rurais, ela iniciou-se ao norte de Milão, estendendo-se a outras cidades, eram contra os bispos, questionavam os sacramentos ministrados por sacerdotes indignos. Aos patarinos obrigavam os clérigos simoníacos ou concubinários a abandonar suas mulheres, eram identificados por serem moralistas, o primeiro chefe desse movimento foi Anselmo de Boggio, que foi eleito pontífice com o nome de Alexandre II..


Os cátaros

O movimento herético que mais se destacou foi o dos cátaros. A parte das terras atingidas pela heresia no sul da França pertencia à província eclesiástica de Narbona. A diocese de Carcassone, foi tomada pelo catarismo, a diocese de Narbona foi atingida em sua parte ocidental. 1140 marca o início da expansão herética pelo sul, em 50 anos, a heresia conseguiu impor-se e expressar-se livremente. Em nenhuma outra região notou-se uma oposição a Igreja tão eficaz e violenta, esse movimento desencadeou-se pelas pregações do monge Henrique, o povo seduzidos por suas pregações deixavam de frequentar a Igreja e pagar os impostos. A Igreja mobilizou-se para destruir Henrique, apesar dele não ser o único responsável pela impopularidade das doutrinas ortodoxas, havia também os arianos. Quando Bernardo de Clairvaux ( depois são Bernardo ) passou por Albi, a cidade já estava mais contaminada pela heresia do que Toulouse. No seu primeiro sermão Bernado fez uma contraposição da heresia com as verdades da fé católica.
A hostilidade da nobreza em relação a Igreja era forte, o mais contaminado parecia ser o de Verfeil. No campo Bernado foi recebido com reserva, quando ele começava seus sermões as pessoas iam aos poucos abandonando as igrejas e do lado de fora faziam barulho para que não pudessem ouvir o que diziam .De volta a Clairvaux, Bernardo estava ciente de que levaria tempo para que a heresia fosse extinta, apesar de ter desmascarado os lobos que devastavam as vinhas do senhor. Henrique foi preso logo após a passagem de Bernado pelo sul. Os maiores aliados dos heréticos pareciam ser os cavaleiros que pelo ódio aos clérigos protegiam todos os que a estes atacavam. Após a partida de Bernado estava surgindo um outro movimento chefiado por Pons, discípulo de Henrique.
Em 1163, no Concílio de Tours, presidido por Alexandre foi redigido em cânon consagrado aos heréticos, nele fala-se que a heresia implantara-se na região de Toulouse e se espalhava até a Gasconha e atacaram as almas simples, contavam com a proteção de pessoas que os acolhiam em suas terras. A decisão tomada pelo Concílio era o da vigilância redobrada e a condenação daqueles que ajudassem os heréticos, proibia as relações entre os católicos e heréticos, até mesmo as de comércio e também era concedido o direito de confisco pela Igreja dos bens dos heréticos. De nada adiantou o Concílio, em 1165, houve uma grande concentração de Lambers, os hereges foram levados ao tribunal e interrogados pelos juízes, esses bons homens disseram não considerar o Velho Testamento e que seus princípios origina-se dos evangelhos e das Epístolas, baseando-se em São Paulo, disseram que o homem e a mulher são unidos para a luxuria e a fornicação, afirmaram que não fariam qualquer juramento ao tribunal e não aceitavam a autoridade dos juízes, e que os juízes eram lobos, hipócritas, sedutores e mercenários; com isso os juízes os declararam heréticos e tudo ficou como estava antes. O encontro foi importante, por ter sido o primeiro confronto em público entre católicos e cátaros.
Dois anos mais tarde houve uma reunião; com o objetivo de adotar o dualismo absoluto, os bispos cátaros presentes foram reordenados pelo papa Nicetas. Foi estabelecido os limites das dioceses cátaras de Toulouse Carcassone, isso mostra a importância numérica de cátaros na Europa. Diante desse movimento nota-se a impotência da Igreja de Roma, a fé católica é descrita como sendo um barco preste a afundar. Atração dos cátaros sobre a população, principalmente na zona rural paralisava a Igreja de Roma. O Conde Raimundo V, vendo essa situação escreveu ao abade Alexandre da ordem Cisterciense, descrevendo os efeitos sobre as pessoas, e que não acreditavam mais nos sacramentos e que ele sentia-se incapaz de conter a heresia, pois ele já não contava com o apoio da nobreza. A 21 de Setembro de 1177 O Conde e rei Luiz VII juraram um pacto de aliança contra os heréticos.
Pela primeira vez houve uma intervenção militar contra os heréticos de Toulouse. A aristocracia, os comerciantes e o povo demonstraram hostilidade aos representantes da Igreja e dos reinos. Um rico cidadão Pierre Maurand foi convocado para interrogatório acusado de heresia Maurand foi condenado a uma sessão de chicotadas para que negasse a heresia, ele teria que ir a Igreja todos os domingos descalço e devolver tudo o que tinha pego da Igrejas e destruir o lugar onde se reuniam os heréticos. O abade de Clairvaux e o bispo inglês de Albi ,foram também para a região onde deveriam convencer o visconde Rogério de Biziers a libertar o bispo de Albi, limpar suas terras da heresia e expulsar os heréticos; mas o visconde escondeu-se.
Nessa mesma época, instalava-se o Concílio de Latrão, no dia 5 de março de 1179. O cânon 27 do concílio ataca os heréticos: cátaros, patarinos, publicanos, e pedem aos príncipes para que defendam a fé cristã . A Segunda parte do cânon era relacionada aos bandidos, mercenários que desrespeitavam igrejas, maltratavam crianças, viuvas e órfãos, esses mercenários tinham o apoio da nobreza. Esses nobres e seus mercenários deveriam sofrer os mesmos castigos dos heréticos, seus vassalos não deveriam mais nenhuma obrigação para com eles, todos os que ajudassem a combater as heresias gozariam de indulgências.
Esses apelos da Santa Sé não encontraram eco em Languedoc e Barcelona; bandos de mercenários infestaram o Languedoc matando, pilhando e queimando. A Igreja passou a atacar a heresia através de uma de suas praça-fortes, com a ajuda do conde de Toulous. Dois heresiarcas em Lavaur converteram-se a boa fé mas apesar desse êxito, a heresia continuava a fazer adeptos, em outubro de 1187 com a queda de Jerusalém, que passa às mãos dos infiéis, a heresia no sul da França foi esquecida pela Igreja e Somente em 1198 o papa Inocêncio III enviou novos legados à província de Narbona.
A heresia era forte também nos condados de Foix, Mirepoixe Pamiers, em várias famílias a heresia passava de geração em geração. A expansão da heresia deu-se em razão de vários fatos de diferentes ordens, e sua aceitação foi rápida e grande, devido aos seus pregadores trabalharem com instrumentos conhecidos de seus ouvintes. A semelhança entre heresia e ortodoxia não é apenas na forma de divulgação empregada ou no tema, mas na estruturação das igrejas heréticas, vários heréticos tinham sido padres ou monges portanto já tinham vivido dentro das hierarquias romanas, a igreja cátara aos poucos acabou organizando-se como a católica. Havia a existência de vários elementos de doutrinas e mistura no pensamento cristão, principalmente no apogeu das heresias, havia no mundo cátaro; esposa valdense, filho católico e filha patarina, também tinha pessoas católicas e cátaros ao mesmo tempo.

As doutrinas heréticas

Em 1125, um camponês de Bucy, de nome Clementius ,que possuía um grupo ao qual ensinava que Cristo era apenas uma fantasia, o altar era a boca do inferno, os mistérios da missa não tinham valor, o casamento e a procriação eram crimes. Segundo o cronista Guibert de Nogent, seus discípulos viviam com pessoas do mesmo sexo, mas havia ocasiões em que participavam de orgias e as crianças que nasciam dessas relações eram queimadas, e com suas cinzas preparavam pão para a comunhão.
Eon de I’Etoile, que pregava nas cercanias de Saint-Malo fazia reuniões secretas nas florestas de Broceliande , julgava-se messias que tinha vindo para julgar os vivos e os mortos, seus discípulos eram considerados anjos, a seus seguidores era permitido qualquer alimentação, desde que se alimentassem também de comida espiritual. Eon vivia confortavelmente com o dinheiro que recolhia de seus seguidores. Tanto Eon quanto Clementius morreram na prisão, esses heresiarcas eram antimaterialistas, condenavam o casamento e a riqueza, e como eram na maioria das vezes ignorantes certamente aprenderam essas doutrinas através de contatos com missionários do oriente ou pregações de tecelões relacionados como missões heréticas.
Em 1157, o arcebispo queixou-se que o maniqueísmo espalhara-se em sua diocese pela boca de tecelões intinerantes, estes condenavam o casamento e incitavam a promiscuidade sexual. Na Alemanha, o abade Schoenau escreveu um tratado contra os cátaros, e promoveu em 1163 a queima de vários em Colônia. Um ano antes, o imperador Henrique III enforcou muitos maniqueus na mesma cidade. Em 1160, na Inglaterra um certo Geraldo e mais trinta pessoas foram condenados, tiveram suas cabeças marcadas a ferro quente. Um grupo de heréticos condenados em Vézèlay, em 1167 denominados publicanos, segundo a Igreja negavam os sacramentos, o sinal-da-cruz, a água benta, o casamento, o sacerdócio; sete deles foram queimados. Segundo o historiador Runciman, a origem desses heréticos flamengos e borguinhões estava ligada ao oriente. Os paulinianos de constantinopla seriam responsáveis pelo trabalho missionário; e constituíam uma ramificação da Igreja de bogomila.
No concílio de Saint-Felix de Caraman no Languedoc o papa Nicetas induziu os heréticos a adotar um dualismo absoluto ao invés do maniquísmo . Essa idéia no primeiro milênio a. C, pode ser encontrada nas religiões tanto na China como na Índia. No Irã por volta de 1000 anos a .C Zaratustra evidencia a existência de dois mundos. Segundo ele o homem poderia escolher entre o bem e mal, tendo que arcar com as consequências após a morte. Alguns historiadores negam as relações entre os ensinamentos de Zaratustra e o maniquísmo.
Na Grécia, os adeptos de Dionísio pregavam sobre o mal eminente ao corpo, exortavam a libertação da alma pela meditação; Platão pensava na alma perdida que se afastou do mundo luminoso do espírito , que se exila na matéria inferior de onde quer escapar para voltar para o Céu. No movimento gnóstico, essas idéias era fundamentais, o conhecimento representa uma iniciação nas verdades maiores da religião, as comunidades gnósticas reuniam sábios e eruditos com crença comum da renúncia ao mundo e marca os cristãos nos primeiros séculos do cristianismo profundamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário