2 de fevereiro de 2010

A viagem do descobrimento: a verdadeira história da expedição de Cabral.

Eduardo Bueno
Rio de Janeiro, Objetiva,1998



A Viagem do Descobrimento
Flávio Santos

Dentro do contexto de comemoração dos 500 anos da chegada oficial dos portugueses ao Brasil, inúmeros temas que envolvem esta chegada estão sendo colocados em revisão. Alguns já bastante discutidos, mas que ainda não foram esgotados, como é o caso da antecedência e intencionalidade do achamento da Terra de Vera Cruz.

É para contribuir com essa discussão que o jornalista e escritor Eduardo Bueno lança a Coleção Terra Brasilis, onde busca o entendimento do universo que envolvia as primeira expedições ao Brasil, reconstruindo através de relatos, diários de bordo e cartas a vida, experiências e as impressões dos homens que se lançaram ao mar em busca do conhecido ( as especiarias das Índias ) por caminhos desconhecidos( o Mar Tenebroso ). A coleção se divide em dois volumes: O primeiro volume com o título A viagem do descobrimento e o segundo Náufragos, Traficantes e Degredados. Aqui serão analisados apenas os pontos levantados no primeiro volume.

Eduardo Bueno, faz uma descrição dos preparativos para a viagem encampada por Cabral, relatando os indícios de terras percebidos durante a viagem de Vasco da Gama e a confirmação deles pela expedição de Cabral. Segundo o autor, esta expedição havia sido preparada com o intuito de demostrar o poderio militar e o fausto de Portugal ao Samorim de Calicute, que havia desdenhado da expedição de Vasco da Gama, ocasionando os conflitos com os mercadores árabes, o que comprometia os interesse mercantis de Portugal naquela região. Assim, Cabral inicialmente deveria cumprir a tarefas de impressionar o Samorim de Calicute – pelo luxo e pelas armas - e a partir daí estabelecer o comércio de especiarias. Entretanto, no meio do caminho, a expedição de Cabral deveria realizar a manobra " voltar do mar " para assim conseguir atravessar, com êxito, o Cabo da Boa Esperança. É neste ponto que se instaura a polêmica em torno da chegada dos portugueses ao Novo mundo.

A " volta ao mar " foi uma manobra descoberta acidentalmente por Bartolomeu Dias por ocasião de sua tentativa de concluir o périplo africano e atingir Calicute nos ano de 1487 e 1488. Uma tormenta afasta sua expedição da costa empurrando-a para o sul, ao cessar a tempestade constata ter conseguido atravessar o então Cabo das Tormentas, mas é forçado por um motim a retornar a Portugal. No seu retorno, transmite as suas experiências a Vasco da Gama que se preparava para empreender a sua viagem. Na execução da manobra, Vasco da Gama se aproxima do continente, percebe os indícios de terra, mas segue viagem. Quando em Portugal, Vasco da Gama relata ter avistado sinais de terra e, segundo E. Bueno, embora "(...) sua missão fosse instalar um entreposto português no coração do reino das especiarias, em Calicute, na Índia, nada impedia Cabral de, naquele instante, prosseguir mais algumas léguas para oeste (...)" [1].

Como resultado deste desimpedimento, a esquadra de Cabral avista nas "horas de vésperas" do dia 22 de abril o monte (posteriormente) Pascoal. Estava achada a terra que seria chamada Brasil.

Eduardo Bueno, assumindo um posicionamento favorável à tese da intencionalidade portuguesa no achamento do Brasil, argumenta que sua existência já era prevista em Portugal desde o final do século XV [2]. Sendo assim, considera a intencionalidade dos portugueses indiscutível, não ocorrendo o mesmo com a questão da antecedência [3]. Embora não fosse possível negar a presença de navegadores espanhóis no litoral norte do atual Brasil meses antes de Cabral, E. Bueno, contesta a antecedência em dois anos de Duarte Pacheco em relação a esquadra de Cabral, afirmando-a produto de uma obscura passagem extraída por Pereira da Silva do Esmeraldo de Situ Orbis.

A viagem do descobrimento, é uma obra de fácil leitura em que o autor se esmera em fornecer informações adicionais ao texto principal nas notas do canto da página, acompanhadas sempre de ilustrações que igualmente ajudam no entendimento da abordagem do autor. Sobre o conteúdo do trabalho não se pode dizer que traga um novo olhar ou surpreenda com alguma informação ainda inédita. Ela não é uma obra que se pretenda à uma discussão ou à polêmica, ao contrário, sua intenção é levar ao grande público uma versão da História do descobrimento. Eduardo Bueno, prefere manter-se fiel à visão oficial, já consolidada pela insistente repetição, fazendo coro nas vozes que aclamam Cabral como o grande descobridor e os portugueses como os reveladores dos caminhos para novas conquistas.

De certa forma o autor trata o tema como se fosse novidade e, o que é pior, pelo subtítulo do livro - "a verdadeira história doa expedição de Cabral" – ele pretender ter a última palavra sobre o assunto. Não obstante ser um bom trabalho de reconstituição histórica, o autor desperta no leitor uma expectativa que acaba por ser frustrada. Essa pretensão de relatar a " verdadeira história", pode ser percebida por dois ângulos. O primeiro ideológico, o de reafirmar uma versão da conquista portuguesa de uma ótica conservadora e ainda dominante no seio das elites: a cultura e a civilidade européia vieram resgatar os autóctones do Novo Mundo de sua barbárie e ignominia. Essa forma de pensar o Brasil a partir do ponto de vista da inferioridade e do complexo de colonizado, está muito presente na forma dos brasileiros perceberem a sua sociedade. Afinal, o que é bom vem do primeiro mundo, não é? O segundo ângulo de análise, é que ao considerar a sua obra a "verdadeira história", Eduardo Bueno, desconsidera os trabalhos que o antecederam, além de pretender esgotar o assunto. Será que o autor, desconhece ou não considera relevante o fato de que a verdade é sempre relativa, dependendo do prisma pelo qual se olhe?

Será que essa história relatada por E. Bueno é, em tudo, verdadeira para os marinheiros, degredados e os indianos? E os tupinambás, o que eles têm a dizer dessa viagem do descobrimento? Os olhares são múltiplos e condicionados pelos interesses do seu tempo histórico. Outros autores produziram outras histórias não menos verdadeiras que a apresentada por Eduardo Bueno, talvez com mais originalidade ou com maior problematização, mas igualmente passíveis de críticas e elogios[4].

NOTAS:
1 - BUENO, E. A viagem do descobrimento. P. 9.
2 - idem, p. 130.
3 - O prof. Ubitatan Araújo considera a discussão sobre antecedência e intencionalidade dos portugueses na chegada ao Brasil, produto do etnocentrismo brasileiro, superada pela historiografia do descobrimento. Para ele o foco das atenções está voltado para o processo de expansão européia por meio das navegações, no qual os portugueses cumpriram o seu papel - o de abrir caminhos e consolidar rotas – sendo substituído por outras potências européias que emergiram nas fases subsequentes do desenvolvimento do capitalismo. E, é dentro deste processo que prefere situar a chegada portuguesas às atuais terras brasileiras. Para maiores informações ver entrevista nesta edição.
4 - O leitor que quiser ter acesso a outras abordagens da História do Descobrimento, conferir: FONTANA, Riccardo. O Brasil de Américo Vespúcio. Brasília: Riccardo Fontana, UNB, 1995. GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a Economia Mundial. 4 volumes. Lisboa: Editorial Provença, 1984. NOVAES, Adauto. A descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Flávio Santos é Mestrando em História pela FFCH da Univ. Federal da Bahia

Nenhum comentário:

Postar um comentário