2 de fevereiro de 2010

Os Jacobinos Negros

C.L.R. James
Tradução de Afonso Teixeira Filho
Boitempo Editoria, 400 págs.



"Os Jacobinos Negros" narra a rebelião de escravos bem-sucedida que levou à criação do Haiti no século 19
Negritude em potência
Manolo Florentino

Os processos históricos geram inúmeros tratados e, igualmente, uma verdadeira legião de leitores insatisfeitos. "Ainda bem!", diriam os historiadores, zelosos em justificar a existência de seu próprio ofício.
Pois a verdade é que, longe de se constituir em prova da incapacidade profissional dos tratadistas ou da incúria de seus leitores, reescrever a história é um ato de ordem cultural -o que, de quebra, a torna muito próxima do mito.
Não surpreende que o trabalho do historiador se assemelhe mais à insana labuta de Sísifo do que ao utilitarismo de Hércules, por exemplo. Mas há temas inesgotáveis simplesmente por serem únicos, isto é, por não ensejarem qualquer paralelo. O processo desencadeado a partir da revolta de 1791, que culminou no surgimento do Estado soberano do Haiti (1804), é um deles -pela inusitada condição de única insurreição escrava vitoriosa desde a Antiguidade greco-romana até o fim dos tempos modernos.
Conta-se que a efetiva integração das Antilhas ao Atlântico escravista teve início nas primeiras décadas do século 17, quando os europeus passaram a ocupar Barbados, Guadalupe e Martinica. O padrão logo se estendeu para todas as ilhas menores do Caribe: a instalação mais de homens do que de mulheres, provenientes sobretudo da Inglaterra e da França, financiados por grandes companhias monopolistas que, em troca, se apropriavam dos frutos de seu trabalho por períodos de até sete anos consecutivos. Ao lado de uns poucos escravos, esses "servos brancos" constituíam o essencial da mão-de-obra empregada em propriedades não tão grandes assim, dedicadas especialmente à produção de tabaco, mas também de anil.
Tudo mudou com a rápida disseminação do cultivo da cana-de-açúcar. Em ilhas como Barbados, por exemplo, a concentração dos recursos foi tão violenta que, em pouco menos de 50 anos, o tamanho médio das fazendas multiplicou-se por dez, o número de proprietários brancos diminuiu em 90% e o de negros escravizados cresceu mais de seis vezes. Grandes propriedades, as maiores das Américas, detentoras de enormes quantidades de cativos (os plantéis caribenhos eram, na média, os mais extensos do continente), poucos proprietários brancos, reduzido número de libertos e de brancos pobres -tal foi o panorama que se impôs nas grandes ilhas ao longo do século 18, especialmente na Jamaica e em São Domingos (o antigo nome do Haiti). Este, por liderar a produção mundial de açúcar e de café, passou a ser conhecida como a "pérola do Caribe".

Tudo em seu lugar
Em 1790, às vésperas de regressar à Europa, o barão de Wimpffen era enfático em sua opinião sobre São Domingos: "Nesta terra, todos estão nos seus devidos lugares". Ledo engano. Meses depois estourava a revolução, sobre a qual muito se tem escrito nas academias francesas e anglo-saxãs. Quanto às suas origens, não é consenso que a enorme desproporção entre o número de escravos e o de brancos tenha estado na raiz dos acontecimentos. Afinal, na Jamaica de 1768 conviviam 170 mil cativos e apenas 18 mil brancos -isto é, os mesmos 10 por 1 observados em São Domingos pouco antes da insurreição que levou Toussaint L'Ouverture ao poder.
O veio mais fecundo tem sido rastrear a singular combinação desse panorama demográfico com a intensa ligação da ilha ao tráfico atlântico de escravos, a existência de um draconiano código legal ("Code Noir"), que promovia a radical exclusão dos negros, e a profunda cisão que a Revolução Francesa promoveu entre os brancos da colônia. Além disso, muito se tem insistido no poderoso papel do vodu, que aparava as arestas existentes entre as inúmeras etnias de africanos, entre os escravos e os libertos e entre os cativos e os milhares de quilombolas enfurnados nas matas, dando certa unidade às aspirações e práticas dos homens negros em geral.
Curiosa ironia: pesquisas recentes têm descoberto ter sido Toussaint, ele próprio, senhor de alguns escravos.
No que tange aos acontecimentos posteriores à proclamação da independência por Jean-Jacques Dessalines, poucos se assustam com o fato de se ter optado ali por uma economia camponesa, inserida apenas em circuitos mercantis ultralocalizados. Mas muito se tem insistido no brutal isolamento internacional imposto à nova nação, comparável apenas ao que atualmente é feito com Cuba. Era o resultado previsível do pavor verdadeiramente continental -em especial no Brasil- de que se repetissem alhures os inusitados acontecimentos do Haiti.

Mais política que história
Quase todos esses tópicos estão presentes em "Os Jacobinos Negros", a primeira tentativa de fôlego de interpretação marxista da revolução haitiana, escrita em 1938 por Cyril Lionel Robert James (1901-1989). Trata-se de obra mais política do que histórica -é principalmente um libelo contra a discriminação racial e em favor da afirmação do que mais tarde se chamou de ideologia da negritude.
Uma observação final: é simplesmente desconcertante que, entre nós, a tradução de um livro desse porte, cuja importância historiográfica reside sobretudo na força da sua narrativa, tenha ocorrido somente agora, 62 anos depois da primeira edição em inglês.

TRECHO
Toussaint era um homem íntegro. O homem em que havia se transformado pela Revolução Francesa exigia que fosse mantida a relação com a França da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da abolição da escravidão, indiscutivelmente. O significado da França revolucionária estava sempre em seus lábios, em suas declarações públicas, em sua correspondência e na intimidade espontânea de suas conversas particulares. Era o mais alto estádio da existência social que ele podia imaginar. Não era apenas a estrutura de sua mente. Ninguém à sua volta, além dele, tinha tanta consciência da necessidade prática de resolver o problema do atraso social e das primitivas condições de vida. Sendo o homem que era, por natureza e pela extensão e pela intensidade das novas experiências, que são privilégio de poucos, aquela era a maneira pela qual enxergava o mundo em que vivia. Sua atitude irreal para com os antigos senhores, na sua pátria e fora dela, provinha não de um humanitarismo ou de uma lealdade abstrata, mas do reconhecimento de que apenas eles tinham o que a sociedade de São Domingos precisava. Ele acreditava que poderia manipulá-los. (...) Se estava convencido de que São Domingos decairia sem as vantagens da conexão francesa, também estava certo de que a escravidão jamais poderia ser restaurada.
Entre essas duas certezas, (...) tornar-se-ia a personificação do vacilo. Foi a fidelidade à Revolução Francesa e a tudo que ela possibilitou, para a humanidade em geral e para o povo de São Domingos em particular, que o tornou no que ele era. Mas isso acabou por arruiná-lo no final. (...) Mas as observações dos fatos e as conclusões exigidas não devem obscurecer ou diminuir o verdadeiro caráter trágico do seu dilema, que é um dos mais extraordinários entre os registrados pela história.
Trecho de "Os Jacobinos Negros", de C.L.R. James

Manolo Florentino é professor de história na Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de "A Paz das Senzalas" (Civilização Brasileira) e "Em Costas Negras" (Companhia das Letras).

Na Senzala uma Flor: Esperanças e Recordações na Formação da Família Escrava - Brasil Sudeste, Século 19

Robert Slenes
Ed. Nova Fronteira, 300 págs.



Historiadores discutem obra de Robert Slenes sobre família escrava no Brasil
O fogo africano

João José Reis | Douglas Libby

JOÃO JOSÉ REIS
O título deste livro refere-se à imagem usada por um viajante estrangeiro no Brasil, Charles Ribeyrolles, para quem não haveria "uma flor" na senzala -não haveria amor, família, "nem esperanças nem recordações" entre escravos brasileiros. O historiador Robert Slenes, da Universidade Estadual de Campinas, encontrou essa flor. Seu excelente livro combate a opinião, prevalecente entre observadores do passado, e muitos historiadores até recentemente, de que os escravos eram sexualmente promíscuos, não tendo um mínimo de vida familiar normal. Outros pesquisadores vêm publicando sobre o tema, mas por meio dos mais diversos veículos acadêmicos, e agora deste livro, Slenes tornou-se o principal artilheiro nesse campo.
Ele dedica todo o primeiro capítulo a repassar e comentar criticamente a literatura sobre o tema, desde autores que negavam a família escrava (como Florestan Fernandes e Roger Bastide) aos que agora a estudam (como Manolo Florentino, Roberto Góes, Hebe Mattos e Flávio Mota). Nesse capítulo, como nos demais, além de dar conta da historiografia brasileira, ele identifica influências e coincidências entre o que se escrevia aqui e lá fora, nos EUA sobretudo. Sua erudição bibliográfica é mobilizada para iluminar o caso do Brasil mediante a comparação e o uso de boas estratégias de pesquisa desenvolvidas alhures.

Vida familial escrava
Com efeito, grande parte do livro baseia-se num sistemático e inteligente diálogo, sobretudo com historiadores da escravidão no Sudeste brasileiro. À sua principal base empírica, o município de Campinas, em São Paulo, ele agrega dados de outras regiões levantados por outros pesquisadores para discutir, numa perspectiva comparativa, temas como taxas de nupcialidade, endogamia étnica, relação entre tamanho de plantel e viabilidade de casamento e vários outros aspectos da vida familiar escrava, submetidos a sistemático tratamento quantitativo. Conclui que, em Campinas, típica região escravista do Oeste paulista, a família tem enorme importância para entender os escravos.
Não obstante o grande valor da discussão historiográfica do primeiro capítulo e da impressionante análise demográfica do segundo, estão nos dois capítulos restantes os momentos que considero mais surpreendentes e criativos, talvez os mais polêmicos, desse livro. Neles, Slenes discute a família escrava à luz da cultura africana, mas suas conclusões e métodos vão muito além do tema específico. Tinham os escravos projetos próprios no Brasil e "recordações" da África que os inspirasse em sua implementação? O historiador mostra que sim, contra a opinião preconceituosa de viajantes estrangeiros e literatos nacionais da época, em cujas entrelinhas descobre possíveis sentidos culturais e marcas identitárias da experiência escrava.
A partir de indícios aparentemente insignificantes, amiúde buscados na observação de detalhes em gravuras feitas por viajantes, o autor relaciona, por exemplo, padrões de construção em aldeias africanas com os de senzalas brasileiras, reinterpretando radicalmente as razões de certas soluções arquitetônicas. A ausência de janelas, em particular, vista comumente como recurso de controle senhorial contra fugas, ganha exaustiva explicação "africana". Mesmo que fosse interessante para o senhor que as senzalas não tivessem janelas, os próprios escravos tinham interesse de que fosse assim, e assim construíam suas próprias casas quando conquistavam o direito de fazê-lo.

Grupos bantos
A África nesse livro não é, entretanto, uma noção vaga. Slenes localiza com a precisão possível as regiões de onde foi importada a grande maioria dos escravos do Sudeste brasileiro no século 19. Eram africanos de grupos linguísticos bantos -bakongo, mbundu, ovimbundo e outros. As conexões feitas entre um e outro lado do Atlântico obedecem uma direção precisa de pesquisa e reflexão. O método alcança ponto alto no último capítulo, na abordagem feita sobre a importância material e simbólica do fogo sempre aceso no interior de senzalas sem janelas, coisa que intrigava senhores e visitantes das fazendas, cuja compreensão mais densa se tornou agora possível. Slenes sugere que fogo africano e família escrava tinham tudo a ver, e quem ler o livro irá descobrir a complexidade dessa relação. Basta dizer que, do detalhe do fogo, o autor chega à cosmovisão banto. É método indiciário de causar inveja a Carlo Ginzburg, embora a influência teórica mais diretamente reconhecida por Slenes seja E.P. Thompson.
E por falar em Thompson, esse livro tem enorme importância para o estudo da resistência escrava. Slenes argumenta que tradições africanas fundamentaram identidades e solidariedades que marcaram a luta de classes no Sudeste escravista. Não foi luta espetacular, de revoltas e quilombos que fizessem manchete, mas sobretudo daquele tipo miúdo, sutil, cotidiano, familiar. Ao contrário de outros estudos sobre o tema -notadamente o excelente "A Paz das Senzalas" (Civilização Brasileira, 1997), de Manolo Florentino e José Roberto Góes-, no de Slenes a família não se constituiu em fator decisivo de pacificação escrava. Concordo com ele, desde que se entenda resistência da maneira ampla acima definida. De qualquer forma, caberia pesquisar sistematicamente se -controlados outros fatores intervenientes- fugas, quilombos e revoltas, formas clássicas de rebeldia, floresceram mais entre escravos com menor chance de constituir família.

Continuidades e mudanças
O estudo da cultura escrava faz parte de um campo de reflexões, bastante familiar a Slenes, fértil sobretudo na pesquisa sobre EUA e Caribe. Esse campo está grosso modo dividido entre os que enfatizam continuidades africanas nas Américas, e os que acentuam mudanças. Slenes escolheu jogar no primeiro time. Assim, entre as muitas e sutis especulações, provas e contraprovas cuidadosamente apresentadas, não são postas em relevo as prováveis mudanças verificadas a partir da interação entre culturas africanas e locais (inclusive "branco-européia"). É como se a casa-grande pouco influísse culturalmente sobre a senzala, ou apenas estabelecesse os limites para sua criação cultural. É de perguntar se, e como, valores senhoriais sobre sexualidade, corte e casamento teriam sido apropriados pelos escravos.
Tem-se a impressão de ter havido pouca troca cultural na experiência escrava no Sudeste do Brasil, exceto aquelas desenvolvidas em torno de uma "gramática cultural" banto básica. Que dizer, a propósito, das trocas e transformações culturais resultantes do encontro entre bantos e outros africanos, que, apesar de minoritários, eram numerosos no Sudeste, sobretudo no período mais estudado por Slenes, a segunda metade do Oitocentos? A África "descoberta" no Sudeste pelos escravos, por meio da família e de outros meios, não era só -embora fosse principalmente- banto.
Mas a abordagem bantocêntrica de Slenes tem um efeito salutar, porque, além de ajudar a corrigir o hábito historiográfico de imaginar o escravo brasileiro sem suas memórias africanas, é um bom antídoto contra um certo nagocentrismo predominante nos estudos afro-brasileiros. Estou certo de que esta será mais uma razão para maior divulgação e receptividade deste livro. Muitos adeptos e estudiosos das tradições banto, por exemplo, encontrarão aqui fogo bom para sua panela cultural. Além disso, essa meticulosa investigação dos sentidos culturais da família escrava é uma lição de método para quem pretenda estudar qualquer outra "tradição" da África que tenha permanecido em terras brasileiras.
Não quero deixar de comentar mais um aspecto admirável desse livro. O texto de Slenes tem estilo e densidade, sem perder em claridade. Ele será lido como uma aventura de imaginação na pesquisa, pois o autor expõe passo a passo suas dúvidas e soluções provisórias, até chegar a uma "tese". A maioria de nós prefere demonstrar a tese, digamos, sem rodeios, e perde a oportunidade de ensinar com quantas dúvidas a história é afinal escrita.

João José Reis é professor de história da Universidade Federal da Bahia e autor de "A Morte É uma Festa" (Companhia das Letras).

João José Reis | Douglas Libby

DOUGLAS LIBBY
Visando à desmoralização das forças norte-americanas, era tática do exército britânico, durante a Guerra de Independência, oferecer a liberdade aos escravos que debandassem até as áreas sob seu controle. Cerca de 1900 "desertores" cativos foram embarcados para a Inglaterra, quando da retirada britânica de Nova York em 1783. E, no melhor estilo anglo-saxão, cada um deles foi cuidadosamente registrado em listas elaboradas por oficiais da Marinha Real, listas estas que sobrevivem até hoje.
Entre eles, encontravam-se quatro negros que haviam sido propriedade de ninguém menos que o general George Washington, então comandante supremo do aparato militar da incipiente República e, mais tarde, seu primeiro presidente. Não é difícil imaginar o alarde propagandístico que a imprensa de hoje faria sobre deserções desse calibre, mas, a bem da verdade, até muito recentemente o incidente havia caído em esquecimento total. O resgate veio na magnífica obra de Herbert Gutman, "The Black Family in Slavery and Freedom - 1750-1925", publicada em 1976.
A família Washington, é claro, figurava entre as mais importantes de toda a América britânica. Segundo a lógica das elites brancas, que se achavam em pleno controle do processo de aculturação de seus escravos africanos e nativos, cativos pertencentes a famílias como a dos Washington com certeza adotariam o mesmo sobrenome.
Não obstante, entre os foragidos de tão ilustre proprietário havia um jovem nativo solteiro, cujo nome completo era Daniel Payne. É provável que Washington nunca tenha tomado conhecimento desse fato, mas, se tivesse, seu desgosto por tal "traição" teria sido igual ou maior que a irritação pela perda dos valiosos bens. Nada mais sabemos sobre Daniel, nem se a escolha do sobrenome fora dele mesmo ou de algum de seus antepassados. O que importa aqui é que na adoção de sobrenomes, como em tantas outras escolhas fundamentais ao longo de suas vidas, na medida do possível, os escravos agiam de maneira autônoma, procurando distanciar-se, mesmo que simbolicamente, dos seus senhores. Igualmente importante é notar que, no mais das vezes, esses senhores, e a sociedade branca em geral, nada sabiam sobre o comportamento íntimo dos escravos.
A referência à obra de Gutman não é nada fortuita, pois ela tem constituído uma das maiores e mais importantes inspirações -tanto teóricas quanto metodológicas- das incansáveis pesquisas realizadas por Robert Slenes ao longo deste último quartel de século, pesquisas estas que ora desembocam na publicação de "Na Senzala, uma Flor". Trata-se, desde já, de um marco na historiografia brasileira e, mais especificamente, na historiografia que lida com nosso passado escravista. Tal avaliação se justifica por três razões básicas.
Em primeiro lugar, com "Na Senzala, uma Flor" caem por terra, e agora de maneira definitiva, velhos mitos produzidos por uma historiografia que enxergava no escravo mera coisa dominada e manipulada pelo senhor e, na senzala, uma promiscuidade animalesca. Para historiadores do passado, cujas conclusões lamentavelmente ainda se perpetuam nos textos didáticos de primeiro e segundo grau, a noção de que escravos pudessem formar famílias estáveis e, com base nelas, construir comunidades próprias, seria considerada risível. Slenes demonstra, com evidências empíricas sólidas, não apenas a existência regular e extensa de famílias escravas ao longo do século 19, como também de uniões conjugais de considerável duração, além de crianças cuja formação se dava na presença de ambos os pais. Ademais, embora o palco das pesquisas seja o sudeste da "plantation", as evidências mais pormenorizadas e, portanto, mais convincentes, são originárias do município de Campinas, famigerado no oitocentos como terra dos mais temidos e cruéis senhores de escravos de todo o Brasil.
No terreno metodológico, a obra de Slenes só pode ser considerada como majestosa. Ao vincular, no tempo e no espaço, informações oriundas de fontes primárias variadas e, de modo geral tidas como desconexas, este pesquisador se revela um verdadeiro mestre do ofício que é a história. De listas nominativas, censos, matrículas de escravos, registros paroquiais, inventários "post mortem", testamentos e processos criminais e cíveis, entre tantas outras fontes, extraíram-se dados que, tratados com paciência e engenhosidade, vão revelando quadros inusitados da vida escrava, em particular, é claro, da vida em família.
Por mais que esses quadros apontem para uma certa autonomia escrava, o autor nunca perde de vista a dura realidade de um cotidiano no qual o paternalismo escravista assegurava ao senhor a palavra final. A missão a que Slenes se propõe é a de dotar o escravo de seu devido papel histórico, na melhor tradição de E.P. Thompson. Não é sua intenção alentar uma suposta brandura da escravidão brasileira.
"Na Senzala, uma Flor" é profundamente marcado pela enorme dedicação do seu autor à literatura historiográfica e antropológica sobre a África Ocidental. E, como ele próprio nos lembra, não é para menos: a vasta maioria do aproximadamente 1,7 milhão de africanos desembarcados no Brasil durante o século 19 foi arrancada do oeste africano. É óbvio que o constante fluxo de cativos para o Brasil tendia a reforçar as influências africanas enraizadas na cultura escrava brasileira.
Na análise qualitativa, o autor aproveita seus conhecimentos da África na identificação de práticas de origem africana que emprestam novos significados à família e à comunidade escravas e, portanto, à autonomia -relativa, é certo- tão duramente construída ao longo de três séculos de escravidão. Salvo uma ou outra honrosa exceção, os estudiosos da história do Brasil têm ignorado a África. Agora sabe-se com precisão a que custo.
Para finalizar, detenho-me um pouco no capítulo dois, no qual o autor empreende sua análise quantitativa/demográfica. De modo geral, pode ser considerada uma análise pautada em um extremo cuidado, seja no levantamento, seja no tratamento dos dados. Os argumentos sobre a existência e importância da família escrava no sudeste oitocentista dificilmente serão refutados. Com efeito, tendo a concordar com Slenes que a maioria de seus achados é válida para as regiões de "plantation" das províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como da Zona da Mata mineira, mesmo em áreas onde as uniões conjugais raramente se beneficiavam do reconhecimento formal da Igreja. Quer dizer que, em boa parte do Sudeste, eram grandes as possibilidades de que as uniões de casais escravos -formais ou consensuais- fossem estáveis e de duração comparável à dos casamentos entre livres, e de que a maioria das crianças cativas gozasse da presença de pai e mãe pelo menos até os 10 anos de idade.
Devido a razões distintas, que não cabe arrolar aqui, as mesmas conclusões seriam válidas para todo o território mineiro e para a província do Paraná também. Ao mesmo tempo, concordo que, com a intensificação do tráfico interno após 1850, essa situação favorável à família não deve ter prevalecido nem no Nordeste nem no Sul do Brasil. Por outro lado, devo avisar que é difícil emprestar à análise demográfica um texto fluido. Neste caso, o capítulo dois brinda (sic) o leitor com algumas das frases mais densas e contorcidas de toda a obra (é que, entre outros cacoetes, o autor é um adepto, para lá de entusiasmado, do uso de parênteses).
Finalmente, confesso que não me convenceram os argumentos acerca do continuado apego de senhores paulistas à "ideologia do casamento" e dos consequentes altos índices de casamentos legalmente reconhecidos entre a escravaria provincial, mesmo após 1850, quando esses índices caíam vertiginosamente nas fazendas fluminenses. Levanto uma hipótese complementar. Que meus muitos amigos paulistas me desculpem, mas São Paulo, até a chegada do café, mal passava de um posto fronteiriço colonial/provincial. O que, para os escravos, era bom negócio. É que, longe das pressões do tráfico negreiro -leia-se da constante predominância numérica masculina-, as populações escravas caminhavam em direção ao equilíbrio entre os sexos e à reprodução natural, pautados em uniões escravas estáveis. Aliás, sabe-se que essa era a situação em várias das vilas paulistas do final do século 18. Isso sugere que é preciso reconhecer que os próprios escravos de São Paulo também se apegavam, por tradição histórica, ao casamento.

Douglas Libby é professor de história na Universidade Federal de Minas Gerais e autor, com Eduardo França Paiva, de "A Escravidão no Brasil. Relações Sociais, Acordos e Conflitos" (Moderna).

"Formação do Brasil Contemporâneo"

"História Econômica do Brasil"
de Caio Prado Jr.



Leia a seguir uma resenha publicada pelo historiador Fernand Braudel em 1948 e ainda inédita no Brasil sobre dois livros de Caio Prado Júnior (1907-1990), obras que se tornaram reflexões clássicas sobre o país: "Formação do Brasil Contemporâneo" e "História Econômica do Brasil". O texto é um dos destaques da revista "Praga", e traz ainda artigos de Celso Furtado, José Luís Fiori e João Adolfo Hansen, entre outros.
Fernand Braudel (1902-1985), que no início da carreira -entre 1935 e 1937- deu aulas na USP, é um dos mais importantes historiadores do século, autor, entre outros, de "O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico".

Braudel analisa Caio Prado Jr.
Caio Prado Júnior nos oferece dois excelentes livros sobre o Brasil. Um deles constitui a melhor história econômica de que dispomos sobre seu país; o outro é o início de uma obra que se anuncia -e que esperamos monumental- sobre o Brasil de hoje. Dois livros, dois esboços, dois percursos diferentes, de calibres igualmente distintos, mas no mesmo tom. Cabe indagar: no mesmo tom científico?
Inspirados na "dialética materialista" e com um vigor singular, acentuam os "processos" da história. Poderíamos dizer, as correntes e os fluxos da vida em que o passado não cessa de inflar e de alimentar o instável e efêmero presente. Correto, toda história implica uma filosofia, conforme esclarece nosso autor no vigoroso prefácio de "História Econômica do Brasil". Quanto a isso, não procuraríamos desavenças. Não há paisagem, nem história, sem posto de observação. Isso vale tanto -se não mais- para nossas incertas ciências humanas, quanto para as ciências da natureza. Trata-se, rigorosamente, de considerar a posição do observador.
Perdoem-nos esses alertas, não há razão para desenvolvê-las aqui nos "Annales". Desnecessário afirmar o que há de justo, forte e eficaz na dialética materialista aplicada à história; graças a ela, o manto da nossa disciplina foi iluminado. Isto é uma verdade trivial. Não é preciso lembrar quanto, nos "Annales", temos combatido pró e contra esses esclarecimentos, às vezes úteis e novos, mas também terrivelmente deformadores quando realizados sem a devida atenção.
Em todo caso, se o debate teve que ser reaberto, não vamos dispensar apressadamente dois livros vigilantes, repletos de méritos e cheios de riquezas. Uma crítica, que seria também a defesa dos nossos pontos de vista, revelar-se-ia tremendamente infeliz. Apesar da prévia opção filosófica, Caio Prado é, para bem e para mal, um historiador nato. Trata-se de um observador habituado a checar as fontes, a confrontar a relação entre os fatos, a avançar com prudência e, principalmente, atento à vida múltipla dos homens, que confunde os teóricos, sempre caprichosos, mesmo em relação às causas mais profundas e determinadas...
Nesses livros, que ninguém se deixe enganar pelo tom voluntariamente despojado de paixão exterior, de poesia fácil e pitoresca. Mal-disfarçados, deixam entrever uma violenta paixão pelo imenso país, do qual estudam a infância e adolescência, com aguda inquietação pela verdade, inteligência e honestidade -que ainda é a melhor maneira de amar os homens, onde quer que estejam. Compreender o Brasil, decifrar suas origens, diagnosticar seus males de maneira científica, válida, distante das vias fáceis e incertas do ensaio, das veredas da pura poesia, das instituições... Logo se verá, se não agora (ninguém é profeta em seu país), que tais livros tendem a germinar, tomando assento na linhagem das grandes e belas obras nas quais o Brasil busca descobrir sua verdadeira face, desde Euclides da Cunha até Paulo Prado e Gilberto Freyre. Sinal de novos tempos: nessa explicação nacional, sempre reiniciada, os historiadores substituíram os poetas, filósofos e ensaístas. Deixemos de lamúrias.
Foi para o ativo Fondo de Cultura Económica do México que Caio Prado escreveu -primeiro em espanhol- esta história econômica do Brasil a que nos referimos na edição em português. Ela se apresenta sob a forma de um livro claro, rápido, de 300 e tantas páginas, em que forçosa e deliberadamente os fatos do passado são expostos em grandes linhas. O autor, que não aprecia painéis, narrativas rebuscadas e quadros construídos de cima para baixo, é bastante feliz em seus sucintos resumos, nos quais o importante é destacado com precisão e dito com vigor.
Oito capítulos cronológicos conduzem o leitor do princípio do século 16 aos tempos atuais: "Preliminares (1500-1530)"; "A Ocupação Efetiva (1530-1640)"; "Expansão Colonial (1640-1770)"; "Apogeu da Colônia (1770-1808)"; "A Era do Liberalismo (1808-1850)"; "O Império Escravocrata e a Aurora Burguesa (1850-1889)"; "A República Burguesa (1889-1930)"; "A Crise de um Sistema (1930 até hoje)". Nota-se rapidamente que Caio Prado não conferiu aos capítulos, todos com enfoques excelentes, os supostos títulos sobre o pau-brasil, o açúcar, a pecuária, o ouro, o café, a borracha, o algodão... Esses títulos são reveladores.
A história econômica não é para Caio Prado um campo fechado, mas uma história interligada, mesclada e intimamente vinculada à vida política e à evolução social. Não será aqui, nos "Annales", que protestaremos. Imagino que outro historiador marxista não hesitaria em decompor, em uma parte, a massa viva da história do Brasil, reservando o etéreo em suas formas diversas para a introdução (e seria necessário comentar tais introduções...).
Poder-se-ia afirmar que a novidade reside no estudo do último século, de 1850 aos nossos dias, ou ainda no mais de meio século que vai da revolução de 1889 e da queda do Império de d. Pedro 2º até hoje? Esse penúltimo capítulo do livro se subdivide em cinco tópicos, sucessivamente: o apogeu de um sistema (advento de uma burguesia de negócios, triunfo do capitalismo estrangeiro e consolidação de uma corrente de exportação de produtos primários); uma crise de transição (entendida, principalmente, como a crise financeira que é a consequência crônica do sistema, oscilações no câmbio, quase bancarrota, consolidação do enorme montante da dívida externa); expansão e crise da produção agrícola (um destacado estudo sobre o comércio do café); a industrialização; o imperialismo (esse título, sem epítetos, parece-me muito discutível, mas...).
Todas essas questões mereceriam um exame cuidadoso que não podemos desenvolver aqui. Seria desejável que uma tradução francesa colocasse essas riquezas ao alcance de nossos leitores, professores, especialistas e do público esclarecido da política e dos negócios. Insurjo-me contra qualquer explicação da indústria brasileira que, como indica Caio Prado, não considere suas curiosas origens. Mais do que um nacionalismo econômico, não foi a instável política alfandegária que originou uma indústria artificial, sem perspectiva de conjunto e que ainda se ressente do passado?
Na verdade, o que a análise dessas descrições densas e inovadoras revela é a atenção do autor ao conjunto da paisagem histórica (uma vez que o Brasil menos conhecido é o de ontem e o de hoje, deformado ano após ano pelos desconcertantes e ininterruptos fogos de artifício das inovações econômicas e humanas). Isso o leitor percebe nos demais capítulos do livro, bem como a clareza, a sutileza das análises e explicações. Exemplo: em 1889, há cem anos de distância, a revolução brasileira segue a grande Revolução Francesa. Simples acidente, dirão alguns; apenas um golpe militar, com a participação de alguns civis, afirmarão outros. O povo brasileiro permaneceu inerte, bestializado, na expressão de um dos fundadores da República, "sem consciência alguma do que se passava". Simples acidente.
Entretanto, com ele tudo muda na história do imenso país. Completa-se uma evolução lentamente preparada. Sob o impacto das novas águas, rompem-se todos os diques (incontáveis) do conservantismo imperial. Assim, o militar é introduzido na cena política, por anos a fio. Melhor e mais característico da nova época são os homens de negócios, alçados pela República a uma posição dominante, cheios de importância. O Império, entendido aqui não apenas o regime político, mas a sociedade imperial, a atmosfera da vida brasileira, sempre lhes fora contrário. Mauá, esse extraordinário corretor de negócios, por quem Henri Hauser tem tanto interesse, foi posto no índex do Império... Outros tempos, outros hábitos: nos primeiros anos da República, até mesmo os áulicos do Império lançaram-se às especulações e empreendimentos. Vê-se com esse exemplo, rapidamente tratado, mas suficientemente esclarecedor, que Caio Prado sabe observar, ponderar suas explicações -e que, embora tão distante de nós, segue a mesma trilha dos "Annales".
Supõem-se que tenha algumas restrições. Elas derivam de divergências no enfoque inicial. Aquilo que um brasileiro -penso em Gilberto Freyre- entrevê como tendência a explicar a história do Brasil de dentro para fora (e é seu direito e mesmo dever), imputando-lhe maior responsabilidade por seu destino do que teve realmente. Cada parte do planeta reflete a história do mundo todo, sofre-a, acomodando-se a ela. Por mais atento que Caio Prado esteja à vida desse vasto conjunto, à intervenção dos grandes trustes bancários, por exemplo, limita-se muitas vezes ao horizonte brasileiro. Esse, de tão amplo, torna-se uma prisão para o historiador. Por que Caio Prado não dá maior atenção à história do Atlântico Sul? Para o Brasil, o oceano não é o instrumento de sua ligação com o mundo? Acredito, como ele, que a uma economia brasileira, feita pelo homem brasileiro, se opõe dramaticamente uma economia imposta de fora, inumana, ligada ao "imperialismo" mundial. Essa distinção ilumina uma série de pontos e fatos notáveis. Afinal, o Brasil não está condenado a abrir-se para o mundo, como todas as partes do globo?
A organização do livro merece algumas ressalvas. Tendo seguido um caminho cronológico, Caio Prado não foi levado a acentuar antes a mudança, em detrimento daquilo que persiste? Assim, para falar como Gaston Roupnel, mais do que uma história estrutural, nos é oferecida uma história conjuntural.
E ainda mais: por inclinação, e também por hábito, Caio Prado, salvo engano, crê antes na história, nas realidades vivas da relação das coisas entre si, do que nas coisas mesmas. Procura, por instinto, os cruzamentos e as fronteiras, a maneira como a história econômica reencontra a política e a vida social, mesmo que comprometa o desenvolvimento claro da argumentação. Também esteve pouco atento ao problema dos preços, abordado obliquamente, sem ocupar-se devidamente com as crises cíclicas e intercíclicas, sempre presentes na matéria econômica e humana do Brasil. Nesses domínios, o grande livro de C. E. Labrousse, intelectualmente tão revolucionário, não teve tempo de despertar curiosidades e reações do outro lado do Atlântico.
Haveria muito a dizer sobre esta magnífica análise do Brasil contemporâneo, da qual Caio Prado nos deu o primeiro volume. Considero o livro mais rico e aberto do que o estudo de história econômica. Mas o que Caio Prado nos oferece é apenas uma introdução; um balanço do Brasil colonial, do qual o país é o filho legítimo, um e outro, diz, não emancipados. É em nome dessa herança viva, mesmo quando transformada, que este primeiro volume, dedicado à atualidade, inicia um balanço amplo, minucioso e inteligente dos três primeiros séculos europeus do Brasil.
Voltam-se as costas para a atualidade, mas para melhor apreendê-la. A matéria viva do Brasil atual é uma sucessão de transformações. Contudo ainda não encontrou os marcos nos quais se amalgamar de forma minimamente durável: "Sente-se a presença de uma realidade já muito antiga que até nos admira de aí achar e que não é senão aquele passado colonial". Daí a necessidade de estabelecer construtivamente um marco, no início do século 19, mas não apenas para oferecer um quadro da história. O autor, repito, não aprecia essas histórias imóveis, dissociadas do tempo, cronologias superficiais e, portanto, inconsistentes e irreais. Para ele a história é movimento, agitação, hidrografia viva. O início do século 19, em que tudo se precipita, não é apenas a topografia das partes visíveis. É também o manancial de onde partem os veios d'água e os rios, toda essa ebulição da vida fustigada pelo tempo.
Três partes amplamente concebidas: o povoamento, a vida material, a vida social. Esses títulos revelam apenas parte do dinamismo dos estudos. Podemos afirmar seu rico conteúdo ou escolher alguns filões, algumas páginas de testemunho. Um livro como este se lê com paixão, explora-se como uma mina de fatos e de idéias. Difícil resumi-lo. Posso afirmar que o considero muito breve, apesar de sua amplitude? Apreciaria um estudo que atentasse mais para as ligações entre o homem e o meio brasileiro e que, geógrafo de formação e vocação, Caio Prado poderia e deveria escrever. Eis um grande tema, o das relações entre o homem e a terra brasileira. E, sempre na minha opinião, talvez ainda falte a esta brilhante análise um estudo sistemático da civilização, conduzido segundo as idéias inovadoras de Lucien Febvre e Marcel Mauss, para além das habituais e estéreis rotinas...

Tradução de Paulo Henrique Martinez e Bernardo Ricuper

CILADAS DA DIFERENÇA

CILADAS DA DIFERENÇA
de Antônio Flávio Pierucci.
Editora 34. 22 págs.

EM DEFESA DA HISTÓRIA - MARXISMO E PÓS-MODERNISMO
Org. de Ellen Meiksins Wood e John Bellamy Foster.
Trad. Rui Jungmann.
Jorge Zahar. 218 págs.


resenha


Elogio da Igualdade
Marcelo Coelho

O ser humano não existe: existem ingleses, chineses, americanos.
O americano não existe: existem mulheres americanas, negros americanos, gays americanos. A mulher americana não existe: existem mulheres americanas negras, mulheres americanas gays. A mulher americana negra não existe: existem mulheres americanas negras de classe média, mulheres americanas negras operárias...
Isto não é tudo. As classes sociais também não existem. Há grupos que se redefinem a cada momento, a cada circunstância: motoristas de táxi se dissolvem em corintianos ou palmeirenses, que se dissolvem em adolescentes ou velhos, que se constroem enquanto moradores do Bixiga ou da Lapa.
A Lapa não existe: é uma construção imaginária, uma identidade geográfica criada segundo juízos de valor, experiências subjetivas, jogos de linguagem sedimentados historicamente.
Só que a história não existe tampouco: existem ficções, narrativas que podemos organizar conforme uma estrutura de começo, meio e fim, mas que sempre irão trair a arbitrariedade básica com a qual cada sujeito compõe os dados da realidade. Lembre-se também que o sujeito não existe: é um campo onde se entrecruzam percepções, desejos, linguagens. De resto, a realidade não existe tampouco.
Bobagens como as escritas acima correm o risco, atualmente, de passar como puro senso comum. Com maior ou menor intensidade, volta e meia topamos com raciocínios desse tipo, que correspondem a uma espécie de vulgata pós-moderna. É um grande alívio, nesse quadro de relativismo exacerbado, ler livros como "Ciladas da Diferença" ou "Em Defesa da História". No primeiro, o sociólogo Antônio Flávio Pierucci desmonta, com clareza e bom humor, os paradoxos a que leva o culto contemporâneo à "identidade" (social, racial, cultural, sexual etc.). A crítica ao "ser humano abstrato", hoje tão disseminada entre a esquerda pós-moderna e os teóricos mais radicais dos movimentos negro e feminista nos Estados Unidos, passa hoje em dia por ser coisa avançada. Nota Pierucci, entretanto, que suas raízes podem ser encontradas no extremo oposto do espectro político.
No século passado, teóricos ultraconservadores como Edmund Burke e Joseph de Maistre, em plena luta contra a idéia de direitos humanos universais, aferravam-se à constatação empírica das "diferenças". De Joseph de Maistre, Pierucci cita uma frase tirada das "Considerações sobre a França": "O homem (universal) não existe. Em minha vida eu vi franceses, italianos, russos etc. (...) Quanto ao homem, contudo, declaro que nunca o encontrei". Mais de cem anos depois, o "elogio da diferença" se torna um tema da "nova esquerda", que, contudo, não pode deixar de lado o tema clássico da igualdade. Pierucci ironiza: "Como se vê, tudo parece muito simples, muito claro: "Os seres humanos são diferentes, mas iguais". Neste jogo de linguagem, tudo se passa inocentemente como se não fosse também um jogo de palavras". É como se a luta contra as várias discriminações, a luta por direitos iguais, estivesse imbricada com outra luta, na qual se procura afirmar a identidade, o valor, a originalidade de um grupo. O que, em si, não encerra nenhuma contradição.
Mas, diz Pierucci, quando o movimento negro, por exemplo, vem afirmar que "negro é diferente", isto será repetir algo que os racistas sempre disseram: "Legitima que a diferença seja enfocada e as distâncias, alargadas... essa atmosfera pós-moderna que muitos de nós hoje respiramos nos ambientes de esquerda, essa onda de celebração neobarroca das diferenças, de apego às singularidades culturais (...), tudo isso assusta muito pouco as cabeças de direita...". O que provoca ojeriza na direita é "ainda hoje, 200 anos depois, o discurso dos direitos humanos, o discurso revolucionário da igualdade". No fundo, o problema dessa e outras "ciladas" talvez seja redutível a um mal-entendido linguístico: só posso defender quem é "diferente" em nome da igualdade; mas a defesa do "diferente" passa a se chamar, num modismo pós-moderno, defesa da "Diferença", com letras maiúsculas... e aí, evidentemente, a igualdade fica falando sozinha.
Com ensaios que tratam desde a mentalidade do eleitor de direita na cidade de São Paulo até as mudanças no feminismo americano, "Ciladas da Diferença" mantém uma admirável unidade de argumentação, que se aproxima bastante da de alguns textos reunidos no livro "Em Defesa da História". O escritor Kenan Malik, por exemplo, em "O Espelho da Raça: O Pós-modernismo e a Louvação da Diferença", nota que "a crítica pós-moderna ao universalismo, longe de formular uma crítica à teoria racial, apropria-se, na verdade, de muitos de seus temas e reproduz os próprios pressupostos sobre os quais, historicamente, assentou-se o racismo". Mas este é apenas um dos temas do volume, que surge como uma impressionante máquina teórica contra os vários cacoetes da teoria pós-moderna. A introdução do volume, escrita por Ellen Meiksins Wood -editora da publicação inglesa de esquerda "The Monthly Review"- aponta de forma demolidora a falta de novidade de temas como "o fim da história", "a fragmentação do sujeito" ou o antiuniversalismo pós-moderno.
A ironia de tudo, diz a autora, é que se insiste na fragmentação e no particularismo num momento em que, como nunca, o capitalismo se tornou uma realidade totalizante num grau sem precedentes. Marxista do começo ao fim, com grande vigor crítico e variedade de enfoques - e, sobretudo, sem nenhum ranço "pré-queda do Muro de Berlim"-, o livro traz ensaios de teóricos conhecidos no Brasil, como Terry Eagleton ("De Onde Vêm os Pós-modernistas?") e Fredric Jameson ("Cinco Teses Sobre o Marxismo Realmente Existente"), nenhum dos dois, a meu ver, no melhor de sua forma. É graças às contribuições de Aijaz Ahmad (sobre cultura nos países "pós-coloniais"), de Bryan Palmer (sobre a pertinência do conceito de classes sociais), de Meera Nanda (contra a "desconstrução" do conhecimento científico) e de Carol Stabile (sobre feminismo) que este volume se faz indispensável. Pelo menos para quem esteja farto do oba-oba pós-moderno.

O Abolicionismo

Joaquim Nabuco

RESENHA

O caráter orgânico da escravidão
Evaldo Cabral de Mello

"O Abolicionismo", de Joaquim Nabuco, foi a primeira obra a articular uma visão totalizadora da nossa formação histórica, fazendo-o a partir do regime servil. Nessa perspectiva, a escravidão não constituiu um fenômeno a mais, inegavelmente relevante, mas devendo ser levado em conta em igualdade de condições com outros, como a monocultura ou a grande propriedade territorial. Segundo Nabuco, foi a escravidão que formou o Brasil como nação; ela é a instituição que ilumina nosso passado mais poderosamente que qualquer outra. É a partir dela que se definiram entre nós a economia, a organização social e a estrutura de classes, o Estado e o poder político, a própria cultura.
"O Abolicionismo" fez assim da escravidão o protagonista por excelência da história brasileira, intuição que tem sido largamente explorada por historiadores, sociólogos e antropólogos, embora raramente reconheçam essa dívida intelectual. Cumpre, porém, fazer uma qualificação importante. "O Abolicionismo" não tem a ambição teórica inerente a um livro de sociologia.
Ele quis ser apenas uma obra de propaganda, redigida em Londres em 1883, quando o autor purgava o ostracismo parlamentar das primeiras eleições diretas da nossa história. Isso significa, por um lado, que a sua visão da sociedade brasileira teve de ser vazada numa prosa de feitio literário ou jornalístico, sem pretensões científicas e sem preocupações terminológicas; por outro, que ele não chegou a aprofundar o sistema de mediações entre o regime servil e os demais fenômenos da nossa formação, não escapando, portanto, a certo reducionismo inevitável.
Nabuco nunca cogitou de lhe dar o desenvolvimento que o livro comportava, capaz de conferir-lhe idoneidade científica aos olhos do establishment sociológico. Daí que "Os Sertões" continue a gozar de um status privilegiado na história da sociologia brasileira, embora se possa dizer do livro de Euclides que o seu escopo está limitado à formação das populações do interior do Nordeste, processo que, ao contrário do escravismo, desempenhou papel ancilar na nossa história.
De "Os Sertões" também se poderia dizer que a sua concepção esteve tão jungida às teorias sociológicas predominantes na Europa em finais do século 19 que envelheceu com elas. Pois as novidades -científicas, doutrinárias ou estéticas- costumam cobrar alto preço àquele que as adota por espírito de sistema. No caso de Euclides, como no de outros igualmente bem equipados teoricamente, o "dernier cri" sociológico os desviou de tomar veredas mais prometedoras, como era a do modelo, implícito em "O Abolicionismo", baseado não no meio físico ou na raça, mas na forma da organização econômica e social. É inegável que Nabuco estava relativamente desinformado das últimas tendências da sociologia européia ou do que se julgava no Brasil serem as últimas tendências da sociologia européia, pois as que inspiraram a concepção de "Os Sertões" tampouco eram novas quando ele foi redigido. Nos derradeiros anos de oitocentos, Buckle ou Taine haviam ficado para trás; Tonnies e Durkheim eram os gurus da nova sociologia que se elaborava na Alemanha e na França. Graças a essa desinformação teórica, Nabuco escapou ao destino de escrever um livro destinado ao envelhecimento rápido, como aconteceu com tanta produção sociológica do tempo da República Velha.
Nas artes, como nas ciências humanas, um certo grau, não diria de arcaísmo, mas de desatualização, pode ser saudável. A influência de Tocqueville Ninguém duvida de que a formação científica de Comte era imensamente superior à de Tocqueville, mas tampouco ninguém põe em questão que a influência do autor da "Democracia na América" tornou-se, ao cabo dos anos, bem mais profunda que a do professor do "Curso de Filosofia Positiva". Na medida em que a formação de Tocqueville era basicamente histórica, tratava-se de limitação evidente em época, como a sua, em que se ambicionava, como Comte, erguer o sistema das ciências que fosse desde a matemática e a física até a sociologia, segundo os mesmos parâmetros epistemológicos.
Contudo o que era passivo do século 19 transformar-se-ia em ativo no 20, do momento em que se passou a proclamar a irredutibilidade do objeto das ciências humanas aos métodos consagrados pelas ciências naturais. Foi assim que a desatualização oitocentista de Tocqueville se metamorfoseou num título de modernidade. Devido à sua natureza de obra de propaganda, o livro de Nabuco tornou-se mais ou menos esquecido, tão logo realizado o objetivo para o qual fora escrito. Grosso modo, pode-se afirmar que, durante a República Velha, nossa produção sociológica esteve obsedada pela questão do Estado nacional e das instituições políticas, de um lado, e, de outro, pelo problema da raça. Só nos anos 30 a escravidão regressou ao centro das preocupações, graças a "Casa Grande & Senzala", que infletiu, contudo, a concepção de Nabuco num sentido que o teria certamente surpreendido, vale dizer, no sentido de uma exaltação da mestiçagem -exaltação, aliás, tão gratuita quanto a condenação que se abatera anteriormente sobre ela.
Nos dias atuais, quando as macroexplicações do passado brasileiro perderam o fôlego, como ocorre com qualquer gênero, inclusive os sociológicos, e em que os epígonos se afanam em glosar interminavelmente nossa identidade nacional, como se ela fosse uma entidade metafísica e não uma criação do século 20, cumpre reler "O Abolicionismo" em conexão com "Um Estadista do Império" e com os discursos da campanha eleitoral de 1884. Nabuco utiliza as palavras "abolicionismo" e "escravidão" numa acepção lata. O conceito de escravidão não se referia apenas à relação entre o senhor e o escravo, mas abrangia também as relações do escravismo com o meio físico, o sistema de propriedade da terra, o comércio, a indústria, a cultura, o regime político e o Estado. Devido a esse caráter orgânico da escravidão é que, a seu ver, o abolicionismo constituía a reforma nacional por excelência. Para explicá-la, ele recorre à história comparada da instituição na Antiguidade clássica e no velho sul dos Estados Unidos.
No Brasil, a escravidão adquirira um traço diferencial, o qual consistira em que, por meio da miscigenação, ela formara a nação. Daí que, do ponto de vista da engenharia política, o problema fosse duplamente complicado para nós, na medida em que a cidadania devia ser dada não apenas ao escravo, mas ao próprio senhor. Essa a razão pela qual, na América portuguesa, a instituição servil agira de modo incomparavelmente mais perverso, tornando impossível identificar um setor da vida nacional que não tivesse sofrido suas repercussões ao longo de três séculos. A escravidão afetara o desenvolvimento de todas as classes, sem o fazer, contudo, numa única direção, pois ora atuou no sentido de impedir-lhes ou retardar-lhes o crescimento, ora no sentido de promovê-lo precoce e artificialmente, o que era ainda mais prejudicial.

25 de dezembro de 2009

Ancestral humana

Ancestral humana mais antiga é eleita descoberta científica do ano
Em seu balanço de 2009, a revista "Science" considerou a apresentação do esqueleto de uma fêmea de Ardipithecus ramidus --o fóssil apelidado de Ardi-- o evento científico mais importante do ano. A pequena primata de 1,20 metro, que viveu há 4,4 milhões de anos, é agora o exemplar mais antigo conhecido de um ancestral da espécie humana. Tirou do trono Lucy, um fóssil de Australopithecus afarensis, 1 milhão de anos mais recente.

fonte:
http://noticias.bol.uol.com.br/ciencia/2009/12/25/ancestral-humana-mais-antiga-e-eleita-descoberta-cientifica-do-ano.jhtm

18 de setembro de 2009

PRESIDENTES BRASILEIROS

Manuel Deodoro da Fonseca

     Militar por vocação, destino, herança e necessidade, Manuel Deodoro da Fonseca foi oficial de carreira que ascendeu na tropa brasileira graças à bravura em combate, à determinação e ao comportamento irrepreensível. Participou da repressão à Praieira, do cerco a Montevidéu e de uma dezena de batalhas na Guerra do Paraguai. Sua ascensão foi tal que, em 1883, além de comandante das Armas do RS, ele virou presidente provisório da província. Foi então que se envolveu na Questão Militar: aliou-se a Júlio de Castilhos e desafiou a monarquia. Ainda assim, em tese, a questão militar acabou bem para todos - menos para Deodoro, que, apesar de continuar comandante das Armas de uma província, percebeu que, na verdade, fora “desterrado” para Mato Grosso.
    Mas foi em agosto de 1889 que o império, sem o perceber claramente, fez de Deodoro um inimigo. Primeiro, o coronel Cunha Matos, o mesmo da Questão Militar, foi feito presidente de Mato Grosso - seria um coronel mandando num marechal. Depois, Gaspar Oliveira Martins - que Deodoro odiava - virou presidente do RS. Embora amigo de Castilhos, Assis Brasil, Ramiro Barcelos e dos outros republicanos gaúchos, Deodoro não era um deles. Tanto que, logo que chegou ao Rio, em 13 de setembro de 1889, após deixar Mato Grosso sem maiores explicações ao governo, Deodoro escreveu numa carta a um sobrinho: “República no Brasil é coisa impossível porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela”. Faltavam 63 dias para o marechal dar o golpe republicano.
Deodoro estava doente; passou quase todo o mês de outubro de cama. Apesar de amargurado com o governo, gostava do imperador e relutou antes de conspirar. Parece ter sido quase um bode expiatório às avessas, um “inocente útil”, atraído à rebelião por Benjamin Constant - para fazer a ponte entre a velha guarda e a “mocidade militar”. Talvez isso explique os seus vacilos em frente às tropas, no Campo de Santana, quando derrubou o ministro Ouro Preto, mas não ousou proclamar a república. A república de fato só foi proclamada à noite, na casa de Deodoro, com ele na cama. Alguém espalhou o boato de que D. Pedro escolhera Gaspar Silveira Martins para o lugar de Ouro Preto. As hesitações de Deodoro acabaram. Chamou Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e falou: “Digam ao povo que a República está feita”.
Deodoro se tornou o primeiro presidente do novo regime e Benjamin Constant, ministro da Guerra. O convívio entre ambos não foi pacífico - como não era o dos “tarimbeiros” com os “científicos”. Numa reunião ministerial, em 1890, ambos quase se agrediram e Deodoro desafiou Constant para um duelo. Mas dali a dois anos, ambos estariam mortos. Deodoro, que pedira demissão do Exército, exigiu ser enterrado em trajes civis.

Manuel Deodoro da Fonseca

Militar por vocação, destino, herança e necessidade, Manuel Deodoro da Fonseca foi oficial de carreira que ascendeu na tropa brasileira graças à bravura em combate, à determinação e ao comportamento irrepreensível. Participou da repressão à Praieira, do cerco a Montevidéu e de uma dezena de batalhas na Guerra do Paraguai. Sua ascensão foi tal que, em 1883, além de comandante das Armas do RS, ele virou presidente provisório da província. Foi então que se envolveu na Questão Militar: aliou-se a Júlio de Castilhos e desafiou a monarquia. Ainda assim, em tese, a questão militar acabou bem para todos - menos para Deodoro, que, apesar de continuar comandante das Armas de uma província, percebeu que, na verdade, fora “desterrado” para Mato Grosso.
Mas foi em agosto de 1889 que o império, sem o perceber claramente, fez de Deodoro um inimigo. Primeiro, o coronel Cunha Matos, o mesmo da Questão Militar, foi feito presidente de Mato Grosso - seria um coronel mandando num marechal. Depois, Gaspar Oliveira Martins - que Deodoro odiava - virou presidente do RS. Embora amigo de Castilhos, Assis Brasil, Ramiro Barcelos e dos outros republicanos gaúchos, Deodoro não era um deles. Tanto que, logo que chegou ao Rio, em 13 de setembro de 1889, após deixar Mato Grosso sem maiores explicações ao governo, Deodoro escreveu numa carta a um sobrinho: “República no Brasil é coisa impossível porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela”. Faltavam 63 dias para o marechal dar o golpe republicano.
Deodoro estava doente; passou quase todo o mês de outubro de cama. Apesar de amargurado com o governo, gostava do imperador e relutou antes de conspirar. Parece ter sido quase um bode expiatório às avessas, um “inocente útil”, atraído à rebelião por Benjamin Constant - para fazer a ponte entre a velha guarda e a “mocidade militar”. Talvez isso explique os seus vacilos em frente às tropas, no Campo de Santana, quando derrubou o ministro Ouro Preto, mas não ousou proclamar a república. A república de fato só foi proclamada à noite, na casa de Deodoro, com ele na cama. Alguém espalhou o boato de que D. Pedro escolhera Gaspar Silveira Martins para o lugar de Ouro Preto. As hesitações de Deodoro acabaram. Chamou Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e falou: “Digam ao povo que a República está feita”.
Deodoro se tornou o primeiro presidente do novo regime e Benjamin Constant, ministro da Guerra. O convívio entre ambos não foi pacífico - como não era o dos “tarimbeiros” com os “científicos”. Numa reunião ministerial, em 1890, ambos quase se agrediram e Deodoro desafiou Constant para um duelo. Mas dali a dois anos, ambos estariam mortos. Deodoro, que pedira demissão do Exército, exigiu ser enterrado em trajes civis.



Marechal Floriano Peixoto

     Em 25 de fevereiro, Floriano Peixoto foi eleito pelo congresso vice-presidente do Brasil - e uma espécie de "herdeiro presuntivo" da república. Nove meses depois, com a renúncia forçada de Deodoro da Fonseca, ele seria o presidente. Nascido em Alagoas, em 1839, veterano da Guerra do Paraguai, Floriano assumiu o governo como vice-presidente em exercício, em 23 de novembro de 1891. Restabeleceu o Congresso e suspendeu o estado de sítio. Ainda assim, seu governo era inconstitucional: o artigo 42 dizia que, se o presidente não completasse a metade do mandato, novas eleições deviam ser convocadas. Mas, com o apoio do PRP e da classe média urbana, Floriano sentiu-se à vontade no papel de "consolidador da república" e lançou as bases de uma ditadura de "salvação nacional".
Fez um governo nacionalista, austero e centralizador; enfrentou implacavelmente seus inimigos, demitiu (contra a lei) os governadores que tinham apoiado Deodoro; venceu a queda-de-braço contra a Marinha, na segunda Revolta da Armada. No Sul, deu apoio a Júlio de Castilhos. Tornou-se o Marechal de Ferro. Queria a reeleição (que era constitucional), mas, ainda assim, se recusou a dar um golpe - articulado por seus aliados jacobinos - contra a posse do civil Prudente de Morais.




Prudente José de Moraes Barros

    Governou de 15/11/1894 a 15/11/1898. Consolidou e pacificou a República, reatou as relações diplomáticas com Portugal, rompidas com o auxílio dos portugueses aos marinheiros da revolta da Armada; conseguiu a paz no Rio Grande do Sul, em 1895; enfrentou a Campanha de Canudos, entre 1896-97. Por motivo de saúde, afastou-se do governo, assumindo o vice-presidente Manuel Vitorino, em novembro de 1896, que modificou o ministério, colocando os "florianistas" no poder. Prudente de Morais reassumiu, impondo a ordem através do estado de sítio. Providenciou o prolongamento da rede ferroviária e assinou novo funding-loan (empréstimo). Foi um dos fundadores do Partido Republicano Paulista, em 1901.



Manuel Ferraz de Campos Salles

     Eleito presidente da República para o período de 1898 a 1902. Restaurou a economia e instituiu a política dos governadores, chamada de política café-com-leite onde predominavam Minas Gerais e S.Paulo. Criou o imposto do selo e o do consumo sobre produtos nacionais.

Aumentou a taxa alfandegária sobre mercadorias estrangeiras e extinguiu repartições por medida de economia. Negociou um funding-loan (empréstimo) com a Casa Rotschild, suspendendo o pagamento da dívida externa, multiplicando as falências e trazendo pânico em 1900. Saiu vaiado do palácio, ao término de seu governo. Francisco de Paula Rodrigues AlvesFoi eleito em 1902 com o apoio de São Paulo e Minas Gerais. Uma vez no poder, revelou-se mais conservador do que republicano, dirigindo o país com pulso forte e colocando-se acima dos partidos. Para surpresa de seus aliados, Rodrigues Alves agia como um monarquista anti-oligárquico, ignorando tanto as oligarquias de oposição (do RJ, do RS e do Norte) quanto as oligarquias situacionistas (de SP e MG), que o tinham alçado ao poder. Seu governo foi marcado pela fantástica reurbanização do Rio e por sua posição radical na eclosão da Revolta da Vacina, em 1904, quando enfrentou os militares rebeldes da Escola da Praia Vermelha e os venceu.
Embora cafeicultor - elevado ao poder por cafeicultores como ele -, Rodrigues Alves se opôs às artimanhas do Convênio de Taubaté (o plano dos paulistas para fazer subir os preços internacionais do café). A "traição" tinha explicação: o presidente, além de apologista do liberalismo econômico, precisava ser fiel ao Banco Rothschild, principal credor do Brasil e sustentáculo da política de contenção de emissões, equilíbrio orçamentário e valorização da moeda posta em prática por Rodrigues Alves. Assim sendo, Alves acabou fazendo um governo criticado pelas elites oligárquicas e pelo povo, empobrecido depois da carestia no governo Campos Sales e ainda expulso das zonas centrais do Rio pela especulação imobiliária e o aumento dos aluguéis. Mas Rodrigues Alves se manteve firme até o fim - encarando a Revolta da Vacina e tentando fazer de Bernardino de Campos seu sucessor. Porém ele foi derrotado pelo senador gaúcho Pinheiro Afonso Penna Após três paulistas terem ocupado sucessivamente a presidência da República, o mineiro Afonso Penna assumiu o cargo para dar continuidade à política do café com leite. Apesar de vir da terra do leite, Pena foi um presidente "cafeeiro". "Política faço eu", declarou Afonso Pena pouco depois de assumir o cargo. a frase era uma resposta ao apelido que seu ministério - formado por jovens com pouca experiência em cargos públicos - recebera da imprensa: "Jardim da Infância".
Menos ortodoxo em matéria fiscal e financeira do que Rodrigues Alves, Pena bancou um empréstimo de 15 milhões de libras para custear a intervenção do Estado no mercado do café. Incentivou a "internacionalização" do mercado cafeeiro e estabeleceu a política da desvalorização da moeda nacional. Entre 1906 e 1910, especuladores internacionais retiveram 8,5 milhões de sacas para forçar o aumento do preço do produto. O esquema foi benéfico para os atravessadores, mas vários produtores ficaram arruinados e a dívida externa brasileira aumentou muito.O café não era a única preocupação de Afonso Pena: ele promoveu a criação de parques industriais, incentivou a construção de linhas férreas, modernizou os portos do Recife, Vitória e Rio Grande do Sul. promoveu a conquista do oeste, a cargo de Rondon, e organizou a Exposição Nacional de 1908, para mostrar que o Rio "se civilizara".Para sucedê-lo na presidência, Pena queria indicar o presidente de MG, João Pinheiro, que morreu. Pena optou então por seu ministro da Fazenda, Davi Campista. Mas, diz a lenda, o marechal Hermes entrou no Catete e, "de modo "rude", anunciou que pretendia concorrer à presidência da República - enfatizando a proposta com um golpe de espada na mesa. Inconformado com o perfil militarista de Hermes, o eterno candidato ao "trono" presidencial, Rui Barbosa, lançou o próprio nome. Já doente, Afonso Penna não resistiu a três golpes: a briga com o ministro da Guerra, as críticas violentas de ex-aliados, como o oligarca mineiro Bias Fortes, por sua interferência no processo sucessório e, por fim, a morte do filho mais velho. Solitário e isolado - desafiado também por Rui Barbosa -, morreu em junho de 1909, um ano e meio antes do fim de seu mandato. Nilo Peçanha Embora o panorama político estivesse tumultuado pela luta sucessória, e faltassem ainda 17 meses para o fim do mandato de Afonso Pena, o vice-presidente Nilo Peçanha assumiu a presidência dentro da normalidade constitucional. Apesar de terem sido as pretensões presidencialistas e centralizadoras de Pena que abriram as primeiras fissuras na "política do café com leite", os maiores estragos no esquema montado por Campos Sales seriam provocados pelo próprio Nilo Peçanha. Ao apoiar abertamente a candidatura de Hermes da Fonseca, Peçanha foi forçado a romper não só com o Partido Republicano Paulista como também com o Partido Republicano Fluminense, do qual fora um dos fundadores. Peçanha então do Partido Republicano Conservador, fundado pouco antes pelo senador gaúcho Pinheiro Machado.Apesar de ter aberto seu voto, Nilo Peçanha procurou montar um ministério de conciliação e fazer um governo moderado e pacifista. Embora vários comícios no Rio tenham terminado com derramamento de sangue e o governo sido forçado a intervir na Bahia, em Sergipe, no Maranhão e no Amazonas, Peçanha alcançou o seu objetivo e manteve o país sob relativo controle até o fim de seu mandato, em novembro de 1910. Deu continuidade à política fiscal e financeira de Afonso Pena, continuou a incentivar a construção de estradas de ferro (para escoar o café) e frigoríficos. Além disso, criou o Serviço de Proteção aos Índios (entregue a Cândido Rondon) e formou o ministério da Agricultura. Em 1921, Nilo Peçanha dirigiria a reação republicana em combater a candidatura presidencial de Arthur Bernardes. achado, que conseguiu indicar Afonso Pena.




Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca

Eleito presidente da República, exerceu o cargo de 1910 a 1914. No início de seu governo enfrentou a Revolta da Chibata, chefiada pelo marinheiro João Cândido. Promulgou a lei do serviço militar obrigatório e saneou a Baixada Fluminense. De 1913 a 1914, dissidências partidárias provocaram a revolta dos Jagunços ou do Padre Cícero, em Juazeiro (CE), e na região do Contestado, dominada pelos seguidores do monge João Maria. Contraiu novos empréstimos para a defesa do café, emitindo grande massa de dinheiro. Tentou um funding-loan, mediante empréstimo de 14 milhões de libras. Em seu governo houve expansão das linhas telegráficas e férreas.





Wenceslau Braz Pereira Gomes

    Eleito presidente da República, governou de 1914 a 1918. Em seu governo promulgou o Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, em 1/1/1916. Rompeu relações diplomáticas com a Alemanha reconhecendo o estado de guerra, em 26/10/1917. Com os efeitos econômicos da I Guerra Mundial (1914-18), o Brasil teve um crescimento industrial imediato, para suprir a demanda de produtos que não podiam mais ser importados da Europa.





Delfim Moreira da Costa Ribeiro

    Foi eleito vice-presidente da República em 1918. Com a morte do presidente Rodrigues Alves, assumiu a presidência da República de 15/11/1918 a 26/7/1919, até que fossem realizadas novas eleições. Em seu período presidencial faltou-lhe envergadura para as funções, mas prosseguiu nas expansões das vias férreas, reorganizou os patronatos agrícolas e dissolveu a União Geral dos Trabalhadores. Em 28/7/1919 foi eleito vice-presidente da República na chapa de Epitácio da Silva Pessoa, cumpriu o mandato até 01/7/1920 quando faleceu.






Lindolfo da Silva Pessoa

     Uma vez alçado ao poder, o paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942) - primeiro nordestino a comandar a nação - revelou-se muito mais ousado e autoritário do que seus aliados poderiam supor. Ainda assim, desde o início do seu governo, tentou assegurar o apoio dos três "grandes" Estados da federação (SP, MG e RS). Tanto é que seis dos sete ministros que nomeou eram paulistas, mineiros ou gaúchos. Para articular mais plenamente essa composição Epitácio Pessoa nomeou dois civis para os Ministérios da Guerra e da Marinha. Civis comandando militares eram algo que, no Brasil, não se via desde o império. Houve grande indignação nos quartéis.
A atitude "civilista" de Epitácio Pessoa teria amplas conseqüências - embora o desfecho delas só viesse a ocorrer no governo seguinte, de Artur Bernardes. Além da construção de mais de mil quilômetros de ferrovias no sul do Brasil, a maior obra do governo Epitácio Pessoa foi o Programa de Combate à Seca no Nordeste. Com investimento de 304 mil contos, o presidente fez mais de 200 açudes na região. Injuriados com o que julgavam ser um "protecionismo ao Nordeste", os paulistas exigiram que uma quantia similar fosse destinada para "valorizar" outra vez o café. Cedendo às pressões, Pessoa liberou 124 mil contos e o governo estocou 4,5 milhões de sacas, forçando novo aumento no preço do produto, que despencara de 50 centavos de dólar para 20 centavos por quilo.



. Artur da Silva Bernardes

    Foi eleito presidente da República e governou de 1922 a 1926. Durante a campanha para presidente da República, em 1922, divulgaram cartas falsas atribuídas a Bernardes,que insultavam os militares. Depois de sua posse, em 15/11/1922, rebelaram-se a Escola Militar, o Forte de Copacabana e a Guarnição de Mato Grosso, na chamada Revolta dos Tenentes. Apesar do estado de sítio, em 1923 a oposição no Rio Grande do Sul rebelou-se contra o presidente do estado, Antônio Borges de Medeiros, e, em 1924, as guarnições gaúchas de Alegrete e S.Luís Gonzaga rebelaram-se iniciando a Coluna Prestes, que realizou a maior marcha militar da América do Sul. Ordenou o fechamento dos sindicatos e dos jornais de esquerda. Em 1926, os tenentes revoltaram a guarnição de Santa Maria (RS). Bernardes reformou a Constituição, em 1926, estabelecendo restrições na exploração do subsolo. Ao deixar a presidência foi eleito senador. Na revolução de 1930 apoiou Getúlio Vargas, mas em 1932 apoiou os paulistas, sendo então exilado.




Washington Luiz Pereira de Sousa

     Assumiu a presidência da República em 15/11/1926, e foi deposto pela Revolução Liberal em 24/10/1930. Em seu governo suspendeu o Estado de Sítio, estimulou a expansão rodoviária, aumentou a reserva de ouro, remodelou a área urbana da Capital Federal e desenvolveu uma política de valorização do café. Em fins de 1929 caíram os preços de todos os produtos primários, inclusive do café, baixou o valor externo da moeda, sem que houvesse plano para debelar a recessão provocada pela Quebra da Bolsa de Nova Iorque.
A Aliança Liberal reuniu as oposições em torno de Getúlio Vargas, lançando sua candidatura para 01/3/1930, contra Júlio Prestes, candidato oficial de Washington Luís. Perdendo as eleições, os rio-grandenses se rebelaram, em 3 de outubro, tendo como chefe militar o ten-ccel. Pedro Aurélio de Góes Monteiro, que marchou para São Paulo. As forças armadas depuseram o presidente da República, formando uma Junta Militar com os generais Augusto Tasso Fragoso, João de Deus Menna Barreto e o contra-almirante José Isaías de Noronha. Terminava aí a República Velha.




Getúlio Dornelles Vargas

Esse gaúcho foi uma das figuras mais complexas da política brasileira. Getúlio Vargas era odiado por segmentos da esquerda, direita e centro, mas amado por grande parte do povo que o chamava de "pai dos pobres". Chegou ao poder através da revolução de 1930, que pregava o fim dos arranjos políticos oligárquicos da República Velha. Aliado aos tenentes e com os liberais, não conseguiu implantar a república idealizada mas fez o país avançar social e politicamente, mesmo com traumas. No segundo ano de seu governo, os liberais paulistas se uniram aos conservadores para exigir uma constituinte e eleições. Foram vencidos, mas a Constituição foi votada em 1934 e Vargas confirmado presidente pelo Congresso. Em 1935, a Intentona Comunista pretendeu levar os comunistas ao poder com um golpe, mas Vargas os venceu.
Em 1937, transformou-se em ditador e proclamou o Estado Novo. Nesse período, que vai até 1945, dissolveu o Congresso, proibiu os partidos políticos, estabeleceu censura à imprensa, promulgou leis trabalhistas inovadoras e sufocou uma tentativa de golpe integralista (nazi-fascista) banindo seus líderes e também os liberais que se opunham ao seu governo. Rompeu com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), iniciou com os EUA entendimento para instalar uma grande indústria siderúrgica no país e equipar as Forças Armadas, em troca da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, estabeleceu as bases da nacionalização do petróleo, introduziu um sistema de câmbio e cotas para regularizar a exportação de café. A ditadura caiu com o fim da guerra.
Getúlio foi imediatamente eleito senador e voltou à Presidência na eleição seguinte, com o apoio dos dois partidos que ajudara a criar, PSD e PTB. No governo, de 1951 a 1954, lançou as bases para a industrialização do país e criou o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para financiar o programa. Aumentou o salário mínimo em mais de 300%. Criou a Petrobrás em 1953, reequipou as ferrovias, construiu 600 quilômetros de rodovias por ano, aumentou em 60% a produção de energia e limitou a remessa de lucro para o exterior das empresas estrangeiras.
Seu estilo populista o levou à queda em 1954, quando homens de sua guarda pessoal contrataram pistoleiros para eliminar o jornalista da oposição, Carlos Lacerda, e estes mataram por engano um major da Aeronáutica. Diante do ultimato de renúncia feito pelas Forças Armadas, Getúlio Vargas suicidou-se com dois tiros no peito na madrugada de 24 de agosto. A carta-testamento que deixou foi transformada em programa político pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), influiu na eleição de JK pela coligação PTB/PSD e manteve a chama do nacionalismo petebista até o golpe militar de 1964.




General Eurico Gaspar Dutra

    Reformado no posto de marechal, candidatou-se à presidência da República pelo Partido Social Democrático (PSD) com o apoio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Foi eleito para o período de 31/01/1946 a 31/01/1951. Como presidente abriu a importação, consumindo as reservas do país; considerou o salário mínimo como responsável pela carestia; proibiu os cassinos de jogo; promulgou a Constituição de 1946; decretou a cassação do Partido Comunista e o rompimento com a URSS; inaugurou a Usina Siderúrgica Nacional; reaparelhou os portos e preparou a formação da frota petroleira; iniciou a campanha de alfabetização de adultos e instituiu a fundação da Casa Popular.




Getúlio Dornelles Vargas

     Esse gaúcho foi uma das figuras mais complexas da política brasileira. Getúlio Vargas era odiado por segmentos da esquerda, direita e centro, mas amado por grande parte do povo que o chamava de "pai dos pobres". Chegou ao poder através da revolução de 1930, que pregava o fim dos arranjos políticos oligárquicos da Republica Velha. Aliado aos tenentes e com os liberais, não conseguiu implantar a república idealizada mas fez o país avançar social e politicamente, mesmo com traumas. No segundo ano de seu governo, os liberais paulistas se uniram aos conservadores para exigir uma constituinte e eleições. Foram vencidos, mas a Constituição foi votada em 1934 e Vargas confirmado presidente pelo Congresso. Em 1935, a Intentona Comunista pretendeu levar os comunistas ao poder com um golpe, mas Vargas os venceu.
Em 1937, transformou-se em ditador e proclamou o Estado Novo. Nesse período, que vai até 1945, dissolveu o Congresso, proibiu os partidos políticos, estabeleceu censura à imprensa, promulgou leis trabalhistas inovadoras e sufocou uma tentativa de golpe integralista (nazi-fascista) banindo seus líderes e também os liberais que se opunham ao seu governo. Rompeu com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), iniciou com os EUA entendimento para instalar uma grande indústria siderúrgica no país e equipar as Forças Armadas, em troca da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, estabeleceu as bases da nacionalização do petróleo, introduziu um sistema de câmbio e cotas para regularizar a exportação de café. A ditadura caiu com o fim da guerra.
Getúlio foi imediatamente eleito senador e voltou à Presidência na eleição seguinte, com o apoio dos dois partidos que ajudara a criar, PSD e PTB. No governo, de 1951 a 1954, lançou as bases para a industrialização do país e criou o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para financiar o programa. Aumentou o salário mínimo em mais de 300%. Criou a Petrobrás em 1953, reequipou as ferrovias, construiu 600 quilômetros de rodovias por ano, aumentou em 60% a produção de energia e limitou a remessa de lucro para o exterior das empresas estrangeiras.
Seu estilo populista o levou à queda em 1954, quando homens de sua guarda pessoal contrataram pistoleiros para eliminar o jornalista da oposição, Carlos Lacerda, e estes mataram por engano um major da Aeronáutica. Diante do ultimato de renúncia feito pelas Forças Armadas, Getúlio Vargas suicidou-se com dois tiros no peito na madrugada de 24 de agosto. A carta-testamento que deixou foi transformada em programa político pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), influiu na eleição de JK pela coligação PTB/PSD e manteve a chama do nacionalismo petebista até o golpe militar de 1964.






João Café Filho

     Embora tivesse sugerido que ambos renunciassem, assim que Getúlio Vargas se matou o vice-presidente Café filho assumiu a chefia da nação. O impacto provocado pelo suicídio de Vargas impediu que a "República do Galeão" tomasse o poder. A posse de Café Filho foi a solução constitucional. O potiguar João Café Filho (1899-1970) era um político com um passado de esquerda que, como bom fisiologista, se ligara ao populismo ademarista. Fora o próprio Ademar de Barros quem o indicara para vice de Vargas nas eleições de 1950. Ao tomar o poder, Café Filho manteve a posição que adotara durante a crise que levou Vargas ao suicídio: permaneceu na oposição e montou um ministério no qual o predomínio da UDN era evidente. Ainda assim, Café Filho se comprometeu a cumprir o calendário eleitoral, mantendo as eleições para a Câmara, Senado e governos estaduais (marcadas para outubro de 54) e as eleições presidenciais, previstas para outubro de 1955. E cumpriu a promessa. Após a eleição de JK, porém, Café Filho teria participação indireta na tentativa de golpe com a qual a UDN tentou impedir a posse do presidente eleito.




Carlos Coimbra da Luz

    Por ser presidente da Câmara dos Deputados, em 1955, assumiu a presidência da República em 09/11/1955, por ocasião da doença do vice-presidente João Café Filho. Foi deposto pelo General Henrique Lott em 11/11/1955.





Juscelino Kubitschek de Oliveira

    Foi eleito presidente da República para o período de 31/01/1956 a 31/01/1961. Uma vez no poder, JK revelou-se dinâmico, empreendedor, competente e astuto, e seu otimismo contagiou a nação. Apesar de conciliador, JK não fez concessões à UDN: dos 24 ministros civis, 16 eram do PSD e seis do PTB. O "partido golpista" (a UDN) não recebeu uma única pasta. Ainda assim, os anos JK seriam marcados pela estabilidade política: a cúpula militar se aclamara; os golpistas tinham perdido duas paradas altas - a renúncia de Vargas acabou virando o suicídio de um "mártir" e a tentativa de impedir a posse de JK esbarrou na "espada neutra" do general Lott. Embora uma pequena rebelião liderada por dois oficiais da Aeronáutica, deflagrada duas semanas após a sua posse, em fevereiro de 1954, tivesse ocorrido em Jacareacanga, no Pará, JK teria toda a tranquilidade para governar.Para executar seu ambicioso Programa de Metas - simbolizado pelo slogan "50 anos em 5" e baseado no binômio "energia e transporte" -, JK, disposto a derrotar a burocracia, criou órgãos paralelos e horários alternativos de trabalho. Ao obter recursos que lhe permitissem concretizar seus planos, ele acabou forjando a expressão "nacional-desenvolvimentismo" - uma astuciosa política econômica que combinava a ação do Estado com a empresa privada nacional e o capital estrangeiro.Entre muitas ações que marcaram um surto desenvolvimentista sem precedentes no país, o governo JK se notabilizou pelo grande impulso que deu à indústria automobilística. Ainda em 1956, JK criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia). Graças a incentivos fiscais, empresas automobilísticas multinacionais, como a Ford e a General Motors (que estavam no Brasil desde 1919 e 1925 respectivamente), passaram a fabricar utilitários em 1957 e outras montadoras se instalaram na região do ABC paulista.
De início, devido ao interesse primordial dos EUA no mercado da Europa, foram justamente empresas européias as que vieram para o país, entre elas a Wolkswagen, alemã, e a Simca, francesa. Em 1959 foi lançado o primeiro Fusca montado no Brasil - e JK orgulhosamente desfilou a bordo do carro, que se tornaria um dos mais vendidos e amados do país. Também em 1959 a Simca lançou a luxuosa linha Chambord, logo transformada em símbolo de requinte e eficiência, que seriam associados à era JK. entre 1957 e 1960, foram produzidos mais de 320 mil veículos, 90% a mais que o previsto. O Brasil orgulhosamente se movia sobre quatro rodas. O governo Juscelino também entrou para a história por construir a capital Brasília. Em setembro de 1956 foi aprovada a lei 2.874, que criou a Cia. Urbanizadora da Nova Capital. As obras se iniciaram em fevereiro de 1957, com apenas três mil trabalhadores - batizados de "candangos". Os arquitetos Oscar Niemayer e Lúcio Costa foram os encarregados de projetar a cidade "futurista". Nove meses depois, cerca de 12 mil pessoas viviam e trabalhavam em Brasília.






Jânio da Silva Quadros

     Foi eleito pela União Democrática Nacional (UDN) e Partido Democrático Cristão (PDC). Durante a campanha, Jânio conseguiu conquistar uma legião de admiradores com um discurso populista e marcadamente moralista. Apresentava-se como o "homem do tostão contra o milhão" que iria "sanear" a nação. O seu símbolo preferido era a vassoura e o jingle "Varre, varre vassourinha/ Varre, varre a bandalheira/ O povo já está cansado/ De viver dessa maneira". Em outubro de 1960, Jânio recebeu uma das mais expressivas votações da história: teve 48% dos votos (6 milhões de votos). Sua vitória só não foi total porque, graças a desvinculação dos votos, Jango, da chapa do general Lott, se elegeu vice-presidente.
Assumiu em 31/01/1961 e revelou-se tão histriônico quanto se poderia supor. Enviava centenas de "bilhetinhos" aos ministros e assessores (mais de 2 mil em 206 dias de trabalho). Jânio proibiu a propaganda em cinemas, regulamentou os horários e as normas do jogo de cartas em clubes e a participação de crianças em programas de TV e rádio, entre outras medidas. Mas governava sem base política: PTB e PSD dominavam o Congresso, Lacerda passara para a oposição, Jânio não consultava a UDN e o país estava endividado. A 24 de agosto de 1961, Lacerda fez um discurso no rádio denunciando uma suposta tentativa de golpe articulada por Jânio. No dia seguinte, após quase sete meses no governo, o primeiro presidente a tomar posse em Brasília estarrecia a nação ao anunciar sua renúncia. Alegou que "forças terríveis" levantaram-se contra ele.
A única explicação aceitável para essa atitude é a de que Jânio, não tendo maioria no Congresso, não suportou governar limitado pelo parlamento, sabia da aversão dos militares pelo vice-presidente João Goulart, imaginou um vazio no poder e a sua recondução à presidência com amplos poderes constitucionais. Jânio com isso deu início a guerra da legalidade que pressionou os militares a darem posse ao vice-presidente João Belchior Marques Goulart. Depois tentou voltar ao governo de São Paulo em 1962 e perdeu para Adhemar de Barros. Foi cassado em 1964 pelos militares. Em 1985 elegeu-se prefeito de São Paulo, derrotando Fernando Henrique Cardoso. Faleceu em fevereiro de 1992.





João Belchior Marques Goulart

    Como se não bastassem as acusações que militares e udenistas havia anos lhe faziam, no momento em que Jânio renunciou, João Goulart estava na China Comunista. Embora se tratasse de uma visita oficial, eram tempos de guerra fria e Jango sempre fora visto como o "líder da república sindicalista", um comunista travestido de democrata. O próprio Jânio parecia compartilhar dessa opinião e tentou o blefe da renúncia por achar que nem os militares nem o Congresso entregariam o país "a um louco que iria incendiá-lo". Mas não havia ninguém ao lado de Jânio e a encenação falhou. Isso não significava, porém, que os ministros militares e os conservadores em geral estivessem dispostos a deixar o mais destacado político do final da era Vargas tomar o poder. Mas, além do Congresso se negar a vetar a posse de Jango, o general Augusto Lopes, chefe do 3º Exército (com sede no RS), instigado pelo governador Leonel Brizola, declarou-se disposto a pegar em armas para garantir o cumprimento da Constituição.
A crise foi contornada com a criação de uma comissão no congresso que propôs a diminuição dos poderes do presidente e a adoção de um regime parlamentarista. Assim sendo, depois de tortuosa viagem de volta, Jango chegou ao Brasil em 31 de agosto de 1961 e, no aniversário da Independência, tomou posse em Brasília. A situação estava parcialmente resolvida. Tancredo Neves foi nomeado primeiro-ministro. Em julho de 1962, Tancredo renunciou e houve nova crise quando Jango quis nomear San Tiago Dantas (favorável ao afastamento dos EUA e à Aliança com nações socialistas). No final, Brochado da Rocha assumiu o cargo. Em janeiro de 1963, um plebiscito deu ampla vitória ao presidencialismo (9 milhões de votos) sobre o parlamentarismo (2 milhões). E Jango virou presidente de verdade.
O fato de se tornar presidente com seus plenos poderes restaurados não trouxe tranquilidade para Jango. Ele assumia a chefia de um país cada vez mais polarizado, volátil e inquieto. Era constantemente fustigado pela esquerda (Brizola, Miguel Arraes e Francisco Julião), que queria reformas imediatas, e pela direita (Carlos Lacerda, Olimpio Mourão e Costa e Silva), que temia qualquer avanço social. Após quase 20 anos de democracia, a sociedade civil - tanto de esquerda quanto de direita - estava dividida, mas organizada. A primeira achava Jango um "frouxo" e a segunda um "incendiário".
De janeiro a julho de 1963, sob o comando do ministro Celso Furtado, Goulart pôs em prática o Plano Trienal, baseado em "reformas de base". O Congresso recusou-se a cooperar com o projeto. Greves estouravam pelo país. Jango se sentiu forçado a dar uma guinada à esquerda. Para pressionar o Congresso a aprovar as reformas, realizou um comício monstro, no Rio, em 13 de março de 1964. Ao fazê-lo, decretou o começo do fim de seu governo. Em 31 de março os militares tomavam o poder, obrigando Jango a fugir para o Uruguai.





Humberto de Alencar Castelo Branco (CE)

Foi um dos participantes do golpe militar de 1964. Transferido para a reserva no posto de Marechal, em 1964, assumiu a presidência da República. Durante seu governo, de 1964-67, instituiu o Serviço Nacional de Informação (SNI) e o cruzeiro novo como unidade monetária. Criou o Banco Central e o Banco Nacional de Habitação (BNH). Fechou os partidos e criou a ARENA e o MDB. Fixou o coeficiente de correção monetária, aprovou o Regulamento Geral do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) e promulgou a constituição de 24/11/1967, que institucionalizava a ditadura.
Em fevereiro de 1967 surgiu a Lei de Imprensa, que cerceava a liberdade de pensamento e informação e era a expressão definitiva do fechamento do regime. Castelo unificou os institutos de previdência em um só, o INPS. No seu governo foram cassados os direitos políticos de centenas de pessoas entre deputados, governadores, ex-presidentes, lideranças de entidades civis e etc. Morreu logo após deixar o governo em um desastre de avião.





Artur da Costa e Silva

     Em outubro de 1966, com a abstenção do MDB (que se retirou do plenário), Costa e Silva foi eleito presidente e o civil Pedro Aleixo, vice. Depois da posse, em 15 de março de 1967, em vez de contar com o apoio, Costa e Silva teria de enfrentar a oposição e a ousadia crescentes da linha dura do Exército, cada vez mais radical.
Mesmo sem ter ligações com o "grupo da Sorbonne", Costa e Silva - chamado de "tio velho" pelos conspiradores de 64 - assumiu o poder com planos de restabelecer a democracia. Mas, ao fazer de Delfim Neto seu todo-poderoso ministro da Fazenda, o presidente passou a ser visto como inimigo pela linha-dura ultranacionalista. Pressionado pela direita e pela esquerda - visto que pelo país explodiam manifestações estudantis e greves operárias -, Costa e Silva abriu mão dos planos liberalizantes e respondeu com o endurecimento político.
Após a morte do estudante Edson Luís, em março de 1968, a passeata dos 100 mil, em junho, e o discurso do deputado Márcio Moreira Alves, em setembro, o general capitulou e decretou o AI-5, o ato que sacramentou o arbítrio. Em agosto de 1969, quando Costa e Silva ficou doente e uma junta militar assumiu o poder, a vitória da linha dura já estava plenamente consolidada.


Junta Militar de 1969

     Quando o general Costa e Silva sofreu um derrame, em agosto de 1969, a Constituição determinava que o vice, Pedro Aleixo, assumisse o poder. Embora a constituição tivesse sido promulgada pelo próprio regime militar, ela foi simplesmente ignorada. Uma junta militar assumiu o controle da nação e acelerou a escalada repressiva.
 Com as esquerdas já tendo deflagrado a luta armada e seqüestrado o embaixador americano Charles Elbrick, no dia 4 de setembro de 1969, a Junta baixou novos atos institucionais: o AI-13, criando a pena de banimento do território nacional, aplicável a todo o cidadão que se tornasse "inconveniente, nocivo ou perigoso à segurança nacional"; e o AI-14, que estabeleceu a "pena de morte pra os casos de guerra externa, psicológica, revolucionária ou subversiva". Ao mesmo tempo que endurecia as regas políticas, a Junta também institucionalizava a tortura, que se tornaria uma prática comum nos porões da ditadura.
No dia 14 de outubro, por pressão da "comunidade de informações" do Exército - liderada pelo SNI -, a Junta, convencida de que Costa e Silva não se recuperaria, decretou o AI-16, declarando vagos os cargos de presidente e vice. Iniciou-se então a luta pela sucessão, vencida com facilidade pelo general Garrastazu Médici.





Emílio Garrastazu Médici

     Ao assumir o poder, no dia 30 de outubro de 1969, o terceiro general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, estava disposto a consolidar o poder da "comunidade de informações", e a combater a esquerda utilizando as mesmas táticas da "guerra suja" (supostamente iniciada pelos "terroristas"). Assim sendo, o general deu início àquele que talvez tenha sido o período mais repressivo da história do Brasil.Seu governo se transformaria também num dos períodos mais esquizofrênicos na vida da nação: oficialmente tudo ia às mil maravilhas - o Brasil era o "país grande" que ninguém segurava, o "país que vai pra frente", também era tempo do "milagre econômico" e do famoso conselho "ame-o ou deixe-o". Enquanto isso, nos porões da ditadura, havia tortura, repressão e morte.
De 1969 a 1973, de fato houve um extraordinário crescimento econômico no país, aliado a baixos índices de inflação (18% ao não). O PIB cresceu na espantosa média anual de 11% (chegando a 13% em 1973). Houve uma febre de investimento, grandes obras (muitas delas faraônicas e desnecessárias) e muito dinheiro vindo do Exterior, com juros baixos. O ministro Delfim Netto foi o articulador-mor do "milagre".O próprio Médici acabou se tornando o melhor intérprete dessa incongruência ao declarar, em uma de suas raríssimas entrevistas, que "o Brasil vai bem, mas o povo vai mal". Ele fez o país retroceder aos tempos do Estado Novo, não apenas pela utilização maciça da propaganda para promover o regime, como pelo fato de ter feito do deputado Filinto Müller (o carrasco que servira Getúlio Vargas) presidente do Congresso e chefe do partido do governo, a Arena. De todo o modo, o Legislativo seria reduzido à condição de mero homologador das decisões do Executivo.
Durante o período do gaúcho Médici, nunca houve tanta censura à imprensa, tanto cerceamento das liberdades individuais e de pensamento. E nunca se escutaram tão poucas críticas - a não ser quando espocavam os tiros disparados pela guerrilha urbana e rural. Em outubro de 1972, Médici enterrou outra vez as esperanças de redemocratização do país, promulgando a Emenda Constitucional nº2, modificando a carta outorgada pela Junta Militar, que previa eleições diretas para os governos de Estado em outubro de 1974. Mas, então, um grupo de generais "castelistas" concluiu que era hora de tentar restituir um mínimo de normalidade constitucional à nação - e lançou Ernesto Geisel como candidato à sucessão de Médici. As trevas começaram a se dissipar.





Ernesto Geisel

     Geisel tomou posse no dia 15 de março de 1974 e trouxe de volta ao poder o general Golbery do Couto e Silva. Juntos, articularam um projeto de abertura "lenta, gradual e segura" rumo a uma indefinida "democracia relativa". Mas a crise econômica e a reação da "linha dura" do Exército colocariam permanentemente em cheque os planos de "distensão" imaginados por Geisel e Golbery. Embora disposto a levar em frente seu projeto reformista, Geisel em tomar medidas duras amparadas nos poderes que lhe concedia o Ato Institucional nº 5, o AI-5. A atitude mais ríspida de Geisel contra a oposição foi o fechamento do Congresso, em abril de 1977. Em novembro de 1974, o partido de oposição MDB vencera as eleições, aumentando sua bancada na Câmara e Senado. Assim, em março de 1977, o MDB pôde impedir a aprovação de um projeto do governo para reforma do Judiciário. Denunciando a existência da "ditadura da minoria", Geisel fechou o Congresso e, além de implantar a reforma do Judiciário, baixou uma série de medidas "casuísticas", frenado o avanço do MDB e garantindo a supremacia da Arena.
Apesar dos pesares, Geisel colocaria em prática várias medidas para implementar a "distensão". A primeira delas foi a suspensão da censura prévia à imprensa escrita, no início de 1975 - embora rádio e TV continuassem sob vigilância. Em julho de 1975, Geisel assinou um "programa de cooperação nuclear" entre Brasil e Alemanha, sem consultar a comunidade científica e a sociedade civil.
Na área econômica, Geisel herdou de seu sucessor um país com inflação anual de 18,7% e uma dívida externa de US$ 12,5 bilhões. apesar de durante seu governo o PIB ter crescido espantosos 41%, a inflação chegou aos 40% anuais e a dívida externa disparou para US$ 43 bilhões. Mesmo com todas as crises políticas e econômicas, Geisel não apenas seria o único general-presidente a fazer seu sucessor como conseguiria cumprir a promessa de concretizar sua "abertura lenta e gradual". No dia 1º de janeiro de 1979, extinguiu o AI-5. Em 15 de março passou a faixa para João Figueiredo.





João Baptista Figueiredo

     Como Garrastazu Médici, o quinto general-presidente, João Baptista Figueiredo, também chegou ao poder após chefiar o Serviço Nacional de Informação (SNI). Mas, ao contrário de seu predecessor, Figueiredo teve a missão de concretizar a abertura iniciada por Ernesto Geisel.
Se durante o governo Médici a economia ia bem e o povo mal, durante os seis anos do governo Figueiredo tanto a economia quanto o povo foram mal. A uma série de medidas heterodoxas, drásticas e equivocadas - tomadas pela equipe econômica, liderada por Delfim Netto-, se juntaria a segunda crise internacional do petróleo. A inflação e a dívida interna dispararam. No final de 1983, o PIB caiu em 2,5%, e a dívida externa (que passara de US$ 81 bilhões para US$ 91 bilhões) era responsável por juros anuais de US$ 9,5 bilhões. A crise reforçou os argumentos da oposição e gerou inúmeras greves no ABC paulista e ajudou a deflagrar a campanha pelas Diretas Já.
Para cumprir a promessa da volta à Democracia, assinou a anistia em agosto de 1979 e precisou enfrentar as bombas da linha dura, que no início da década de 80 fez o país retornar à época da "guerra suja". Figueiredo manteve o calendário eleitoral, que previa eleições estaduais para novembro de 1982, embora forçasse o Congresso a adotar medidas restritivas à oposição. Por isso, em abril de 1984, a emenda das diretas-já não foi aprovada. Mas, em janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e Figueiredo pôde deixar o poder com a promessa cumprida.






José (Sarney) Ribamar Ferreira de Araújo Costa

     Ao assumir o poder, em 15 de março de 1985, como presidente em exercício, o maranhense José Sarney o fez em meio a uma tragédia nacional e numa situação politicamente precária. Escolhido para integrar a chapa de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral como candidato a vice-presidente, Sarney era um oposicionista de ocasião cuja indicação fora, na melhor das hipóteses, engolida pelo PMDB, que, para compor a Aliança Democrática, precisou dessa aproximação com o homem que havia sido presidente da Arena e do PDS.
Sarney estava longe de ser o candidato dos sonhos dos brasileiros e poderia ter passado despercebido ao longo dos quatro anos de mandato, não tivesse Tancredo morrido sem chegar a assumir a Presidência. Ao deixar o governo, em 15 de março de 1990, porém, Sarney entrara para a história como o presidente da redemocratização, o homem que havia legado ao país uma nova Constituição e provocado imensa mobilização nacional em torno de um pacote econômico, o Plano Cruzado. Graças a astuciosas manobras na Constituinte, Sarney também prolongara seu mandato em um ano, permanecendo cinco na chefia da nação.





Fernando Collor de Mello

     Foi o mais jovem presidente da República - tinha 40 anos quando foi eleito, em dezembro de 1989. Collor chegou ao poder com mais de 35 milhões de votos, vencendo Luís Inácio Lula da Silva, do PT (Partido dos Trabalhadores), no segundo turno. A principal bandeira levantada por ele, na campanha para a presidência pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), foi a caça aos "marajás" (funcionários públicos com altos salários). Em pouco tempo, pulou de 1% da intenção de votos para se tornar um dos maiores fenômenos eleitorais do país.
Sua primeira medida de impacto, após tomar posse em 1º/01/1990, foi o Plano Collor. Idealizado pela equipe da ministra Zélia Cardoso de Mello, o plano acabou com o cruzado, que voltou a ser chamado de cruzeiro, e, por meio de um pacote com 17 medidas provisórias, bloqueou por 18 meses todo o dinheiro existente nas contas correntes e na poupança dos brasileiros - com exceção de Cr$ 50 mil (equivalentes a US$ 50), que podiam ser sacados de imediato.
Também implementou um programa de privatização de empresas estatais e medidas de contenção no Executivo. Mas logo começaram a pipocar denúncias de corrupção contra assessores próximos ao governo e o próprio presidente. A primeira pessoa que se levantou contra Collor foi seu irmão Pedro Collor de Mello, que denunciou Paulo César Farias, o PC. Essas denúncias levaram à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) pelo Congresso. Em agosto de 1992, foi autorizado, pelo Congresso, a abertura de um processo de impeachment. Com isso, Collor foi obrigado a deixar o cargo e aguardar a decisão.





Itamar Agusto Cautiero Franco

    A exemplo do maranhense Sarney, o mineiro Itamar Franco jamais habitara os anseios dos brasileiros. Ainda assim a Constituição lhe destinou a árdua tarefa de comandar um país combalido pela inflação e assombrado pela corrupção do governo Collor, que acabara de cair. O governo Itamar durou do final de 1992 a janeiro de 1995 e lançou o mais bem-sucedido de todos os planos econômicos e fez o seu sucessor. Foi sob sua gestão que o país veria nascer o Plano Real, que apresentou às jovens gerações de brasileiros a vida fora da hiperinflação e que acabou conduzindo à presidência seu principal mentor, o ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso.
 Embora não tenha se caracterizado pela energia e vigor, nem pela firmeza das decisões do mandatário, o governo Itamar entrou para história menos por seus feitos políticos e façanhas econômicas do que pelas atitudes polêmicas de seu protagonista. Foi assim, por exemplo, quando Itamar Franco, decidido a proporcionar a milhões de brasileiros a possibilidade de realizar o sonho de adquirir um carro, pediu - e conseguiu - que a Wolkswagen voltasse a produzir o velho Fusca (sem levar em conta que os avanços da indústria o haviam tornado obsoleto e dispendioso). Apesar de ter fracassado, a iniciativa lançou as bases de uma nova geração de carros "populares", a preços mais acessíveis.







Fernando Henrique Cardoso

    Ao fazer uma coligação com PFL, Fernando Henrique Cardoso seguiu os passos de Tancredo Neves, que também se unira ao mesmo partido (aliança que resultou na presidência de José Sarney). Ao formar uma chapa com o líder do PFL, Marco Maciel, Fernando Henrique não estava rompendo apenas com sua bibliografia, estava alterando os rumos de sua biografia. Criado em 1984, o PFL nada mais é do que uma dissidência do PDS, formada por políticos ligados ao regime militar (como Sarney e Marcos Maciel, mais Jorge Bornhausen e Aureliano Chaves, vice de João Figueiredo).Coligações, é claro, fazem parte do jogo democrático. Reeleição também. Mas o fato é que a aliança com o PFL ajudou a estabelecer um perfil muito mais conservadora ao governo FHC do que se poderia supor a partir da análise da vida pregressa do 38º presidente da República. Quanto a emenda constitucional que permitiu Fernando Henrique Cardoso candidatar-se à reeleição, o fato foi considerado por alguns dos mais respeitáveis analistas políticos do país como uma espécie de "golpe branco", já que alterou as regras do jogo sucessório em benefício do próprio governo.
De todo modo, é possível que o governo FHC, passe para a história sob a égide do sucesso do Plano Real, que, apesar dos índices de desemprego, da crise na saúde pública e do flagelo social que ainda assola cerca de 20 milhões de miseráveis, melhorou a vida dos brasileiros: 8 milhões deles teriam saído da "linha de pobreza". As estrelas do Real foram o frango (cuja produção aumentou em 1 milhão de toneladas, entre 1993 e 1997), o iogurte (a produção dobrou em três anos), as TVs (8,5 milhões foram vendidas em 1996), as geladeiras (4 milhões vendidas em 1996) e, segundo o próprio Fernando Henrique, as dentaduras ("O povo está botando dente", disse ele, em setembro de 1997. Dados oficiais informam que 1,4 milhão de brasileiros não têm um só dente na boca). Ainda assim, a transparência do governo foi comprometida por escândalos políticos e financeiros que, embora não envolvam pessoalmente o presidente, rivalizam, pelo menos nos números, com a roubalheira dos anos de lama da era Collor.



Fernando Henrique Cardoso


     Ao fazer uma coligação com PFL, Fernando Henrique Cardoso seguiu os passos de Tancredo Neves, que também se unira ao mesmo partido (aliança que resultou na presidência de José Sarney). Ao formar uma chapa com o líder do PFL, Marco Maciel, Fernando Henrique não estava rompendo apenas com sua bibliografia, estava alterando os rumos de sua biografia. Criado em 1984, o PFL nada mais é do que uma dissidência do PDS, formada por políticos ligados ao regime militar (como Sarney e Marcos Maciel, mais Jorge Bornhausen e Aureliano Chaves, vice de João Figueiredo).Coligações, é claro, fazem parte do jogo democrático. Reeleição também. Mas o fato é que a aliança com o PFL ajudou a estabelecer um perfil muito mais conservadora ao governo FHC do que se poderia supor a partir da análise da vida pregressa do 38º presidente da República. Quanto a emenda constitucional que permitiu Fernando Henrique Cardoso candidatar-se à reeleição, o fato foi considerado por alguns dos mais respeitáveis analistas políticos do país como uma espécie de "golpe branco", já que alterou as regras do jogo sucessório em benefício do próprio governo. De todo modo, é possível que o governo FHC, passe para a história sob a égide do sucesso do Plano Real, que, apesar dos índices de desemprego, da crise na saúde pública e do flagelo social que ainda assola cerca de 20 milhões de miseráveis, melhorou a vida dos brasileiros: 8 milhões deles teriam saído da "linha de pobreza". As estrelas do Real foram o frango (cuja produção aumentou em 1 milhão de toneladas, entre 1993 e 1997), o iogurte (a produção dobrou em três anos), as TVs (8,5 milhões foram vendidas em 1996), as geladeiras (4 milhões vendidas em 1996) e, segundo o próprio Fernando Henrique, as dentaduras ("O povo está botando dente", disse ele, em setembro de 1997. Dados oficiais informam que 1,4 milhão de brasileiros não têm um só dente na boca). Ainda assim, a transparência do governo foi comprometida por escândalos políticos e financeiros que, embora não envolvam pessoalmente o presidente, rivalizam, pelo menos nos números, com a roubalheira dos anos de lama da era Collor.